segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Orelhas de Van Gogh - texto integral




Orelhas de Van Gogh

Das Schicksal,
das will heissen:
der Sonne Peitsch und Zuegel

Hölderlin


I.
Como gamo
ideias esgalhadas

é tudo quanto sei
do que não é o um

do que foi fugaz
e frágil

às miras
de quem as cabeças como
troféus queriam

é tudo quanto sei
do que não foi unicórnio

mas esgalhados
labirintos



II
A vida é mais
vã semente que fruta

É uma romã

Cuja árvore do coração
curva

E o pensamento doura
e dura.

Mais casca que fruta
sua estrutura

Quase estéril
Quase pedra que pesa

Tão densa e dura



III.
Não, não quero falar do tempo
dos relógios
esse que às voltas nos esquece.
Quero é nosso tempo
de corpos unidos
unindo os triângulos velosos
dos nossos sexos
pela parte mais fina:
esse nosso tempo de clepsidras
gota a gota nos marcando
por dentro a carne.
Esse tempo de coração mais
coração, relógios
entre si ligados e invertidos.
Quero o que, num átimo
escoa, coa
e no pensamento agora vaza.
Esse tempo dissolvido, líquido,
é o que meu sexo conta-gotas
quer mais agora.
Pois nada, enfim, se cristaliza
entre nós
em possível vez e hora de ampulhetas
em tempos de clepsidras



IV.
Hélices do retro prazer, atlas
de geração

Você, para não embarrigar
vestígios

Teus olhos verdes refletindo
cinzas manhãs

Aves embalsamadas: na memória
As primeiras carícias

Sésamos de íntimas portas
Orelhas e senhas

Os cofres da paisagem, invioláveis



V.
Laranja que à noite apodrece,
o sol

Entre outras laranjas
o homem.

Pele, suco
a consistência que consiste

A fruta do peito
gomos
por inteiro: o homem resiste

Ciência de outro sabor
a resistência

Que, salvo aparência,
também traz fome

e, por dentro, estraga
enquanto come



VI.
As Vitórias-Régias baixelas do olhar,
teu perdido olhar

Tuas mãos nos extremos da vértebra
sacra de um sapo

Ah, meias verônicas do tempo
touro de lúcida luz

O que se descortina
a rosa barroca à beira do Tocantins lavada

Samotrácia de relance
libélulas como ideias, vitrais de cada asa

Onde jogas teu perdido olhar, apagado
no quadro-negro da noite




VII.
A dança das horas
e cisnes

Ai, como tudo é longo

A noite a
vida

Inumeráveis as
palavras. Ciscadas por bailarina
de pés molhados.

A caneta tem do coração
a caligrafia
e a pressa

Tem da memória
o pescoço
e longo rio.

Iminente é a morte do cisne
quando do poeta
por fome
a mão aperta



VIII.
Arar de palavras a página
trigo de poeta

que morreu não
morrendo

para deixar de viver
viveu

semente e espantalho
sempre




IX.
Óvulos de celofane & celas.
O delegado do Deic averigua de nós
a verdade à força.
Aprendemos o método, fios elétricos
conduziam a verdade entre nós.
O candelabro dos desmaios
sob os olhares de Médice & do lobisomem crucificado
ao alto da parede.
O cigarro do patriotismo aceso
as consteladas marcas
imitando as vinte e duas estrelas da bandeira
na epiderme de Miguel.
Quem dormia
Eles queriam a verdade a verdade a verdade
e bem sabiam que inventavam
um outro tempo dentro do tempo
vital e denso.

Vital e denso o espaço
que o corpo de outro corpo ocupava:
crescia na fêmea barriga
uma vontade cada vez mais suicida.
Tecia-se o desespero.
As sete portas dessa cidade não davam
para as sete portas dessa cidade de poucas letras.
Dentes de chave não mastigavam
segredos metálicos.
Línguas de níquel salivavam a ferrugem do porvir.
Todos os loucos internados em mim.

Todos os loucos.
Uma saca de baratas & seringas hipodérmicas.
A ciência do desespero, as galáxias
da fuga.

Todos os loucos, a direção do arco-íris
a realidade nada palpável.
Queria o silêncio das bibliotecas
o folhear de portas, o sésamo das palavras.

O sésamo. Os sentidos basculantes às dobradiças
das manhãs.
O galo serrando o claro-escuro,
pisando idiogramas chineses no chão
Beija-flores invaginavam-se em azaléas
e dálias multifoliadas.
O sésamo. A retícula das possíveis visões de rua.
Uma carrocinha laceia as últimas perspectivas
domésticas. Facas de sol
cortam a mesa.
À volta do café o Sabath de moscas.

O pão amanhecido da memória, os hóspedes desse pão.
Suas palavras como chaves guardadas.

O pão de luz à janela, encarquilhada
para o bucólico.
A geometria dos girassóis atrás das vacas.
As palavras e as formas
Como ovais besouros sua matéria trabalham.

É preciso dizer tudo.
Torturamos em nós a latente vontade de torturar.

Abrimo-nos em algems de estranha liga
Pois de colméias químicas
às limas da razão indestrutíveis.

Só não estamos, hoje, livres de nós



X.
Como nunca cortei o dedo
não sabia

A orelha garantiu: o sangue é doce

O beija-flor, espadachim
do sabor



XI.
Bem como voltar a cabeça para trás
e assim ficar:
estátua de sal a memória

Que Deus incendeia as cidades
do tempo

E bitolas nos põe do seguir
adiante?

O que errado era
e o que, em nós, nos condena?

Memória, tuas chamas ainda crepitam
e nós queremos ver



XII.
Quando ponte mínima, trampolim
para salobra água: amor

Um reencontro: essa ponte de braços
mãos dadas

até que nos separem atravessando
adriças e barcos

este gesto de continências
este gesto que adormece do sangue a ciência

esse gesto
que ao contrário de ponte é hiato



XIII.
Essa oficina de cheiros, amor
e o que mais?

Um Deus potável, a química
dessa noite embebida

Teu corpo: roupa sob medida
alfaia a mão

Pela porta dos fundos, costura de luz
a noite mestiça

Teu corpo: casa
de sésamos

Oficina de fugas
Quando nós, sei lá, ressuscitamos




XIV.
Cordas de Stradivarius
estrangulam
os pescoços dos cães.

Pássaros
grilos
rãs
e demais aparelhos 3 em 1
da ntureza
fazem
um minuto de silêncio
para ouvir
o mistério dos homens



XV.
Grande amor? Girassil
A mais bela flor, tão mais não fosse

Cor, forma, cheiro, assim à distância.
Perto, as filigranas

Não há em mim acre.
Trigo, me ocupo. E mais a liberdade

Que já exige terra, cuidados
e espantalhos

Entre nós, amor,
divide-se em pássaros a palavra

E a pedra



XVI.
Ninguém sabe teu sabor. Alguém
teu coração de sinos?

Apenas marcada por sorriso interrompido
de dente de leve em tua pele

Os porcos, só eles, abocanham silêncios
de prazer e gordura

O sabor, o teu, ser contado não pode
Afinal só sentido

Uma só língua para os dois casos
Fruta e História, apodrecida

Porém não antes que os próprios dentes
já entre si consumidos



XVII.
Breve tudo se transformou em pedra
estátua justa
Orelha, baixela a cabeça pendia

Peso-morto outro lado

Tontos, vedaram-se os olhos
egos de dor
e desequilíbrio tudo foi.

Olhos, orelhas, nariz, boca: a balança
que me veio no auto-retrato
da mente, sulcado

Inerte, a mão mostra a faca

O mais não falei
O verso, esta tinta falsa...



XVIII.
A cidade bate no zul que há no cinza
e onde é coração, termina.
Acasteladas linhas
num eletrocardiograma de concretude
grafia possível
ao cimo de todos os edifícios,
andaimes de raras asas
coração, por que não?
De altos e baixos, de longe e fora
é nítida cidade
coração traçado nessa folha azul
de poesia máxima
Entanto, coração mais não é perto dos olhos
ou é outro coração ainda
distribuindo o homem
como quem distribui por veias-ruas, sangue



XIX.
Inúmeras as palavras
o verso
para contentar confissões
de celas metrificadas:
escritos por vezes com a própria tinta

Inúmeras as rimas,
limas
no vão ofício de polir
não grades
mas brios sombrios:
torturadores que das dores só sabiam

Inúmeras as horas,
segundos
e para o relógio de músculos
segundos-luz, escuros:
nem a coltura, anos depois, algo muda



XX.
Dedos embaralhados, atravessamos ruas
A cidade nos casava

Medos e sonhos, multidão e delírio
Qual suor unia

Palavras vigiadas como ovelhas
Um olho o lobo

Sanfonado recorte de jornal
Ali, vê, já muitas mãos atamos

E daquele andar, quiçá boy desavidado,
Ainda papel picado

Biblioteca Mário de Andrade, destino
De nosso silêncio, isca

Atrás de lembranças, capas duras, biombos
Inês. odalisca



XXI.
Ou é por nunca lembrar
que olvida a vida

Ou é por lembrar sempre
que muito esquece

Mas não é por esquecer de morrer
que o homem parte de vez

Afinal ninguém é elefante
a não ser antes presa

É por ter memória de marfim
e o corpo dela ser meio e fim

É corpo que não foi peso
nas medidas de outro corpo

Era um corpo que só era
para o abraço das heras.

E quem nunca por amor chorou
por ofício chora agora

Longe de moça ser e viúva:
é ruga, rosário. É a chuva



XXII.
Vem amor, vem
por sobre a neve de brancos lençõis
por sobre a fria distância
por sobre mãos e joelhos

Vem amor, vem
como um São Bernardo vem
e dos teus barris, seios dependurados,
dá de beber a mim

Vem assim me aquecer, amor



XXIII.
O búzio da orelha
no verso búzio esquerdo: mar

Teu seio prepara biografias futuras
Pulsa, atemporal

(Beethoven, ao mesmo tempo, escuta
minha outra orelha)

As pautas do coração

Isto não importa para a literatura
Teu filho, meu filho

A felicidade, acho, também não



XXIV.
Pés redondos, migalhas de luz
No céu de vidro uma suástica de braços e pernas,
as duas luas árabes das nádegas
no céu da boca.
Embrulhada em lençóis,
a noite adormece fantasmas
põe em néfligê as divagações.
Por outro lado, sonambuliza meias vigílias
ouve-se do tórax o ritmo da asma
e o ditador, derramando sangue em silêncio,
bate mais forte.
Tardio alívio, tardia manhã.
O sol-quase-lâmpada-de-interrogatório, invade
e revista cada canto da retina
e, sem mandado de busca, o quarto.
As culpas nos travesseiros
até que uma frade de chinelos diga bom dia



XXV.
Quando há uma só rosa
no jardim
não há uma só rosa
no jardim

Há mãos

Para o que logo se abre
e morre

Entre nós, pressurosa

Quando há uma só dúvida
multifoliada



XXVI.
Uma noite, ela só
nos transformou, no espelho do teto,
em carta de baralho.
As cinturas nos uniram, perderam-se as pernas.

Uma noite, ela só
nos fez esquecer de outras metades
olvidar digitais, retículas,
embora usados não mais noutras mãos.

Mas ela o nos unir, deixou opostos
coração e verso.
Também iguais forças e o fio da inércia.

Assim o que ela, a noite, em nós cerziu
o dia agora desata.
Voltados contra nós, eis os lábios



XXVII.
Abriu-se o cofre do velho tempo
e viu-se afinal o testamento

Marcas muitas pra você,
umas para mim

E dúvidas, dúvidas, dúvidas
em partes iguais

Nossas relações de sangue, íntimos laços
dúvidas repartiam

Até na velha árvore o baixo-relevo
dúvida era, coração:

eu e você, duas interrogações
uma invertida, ainda

Abriu-se o cofre do velho tempo
viu-se afinal quase nada

Pobre tempo
que, sem uso, só a nós havia guardado




XXVIII.
O velho senta-se à mesa,
serve-se a solidão

Talheres de nafta tem
o tempo

E o tempo tem
a fome

Que, sem pressa, come



XXIX.
Umbigo do dia, sexo a pino
No jardim a borboleta
bate seu par
de
orelhas.
Como cão escavo a memória

Leio Murilo de memória
Alheio hálito de
alho
meu verso.
Tinto instinto
na selva
de letras e lingerie



XXX.
A poesia, uma espécie
em extinção

Como todas as coisas
grandes
e irracionais

Como os mamutes,
dinossauros

E agora as baleias

A poesia, o Moby Dick
do homem
e dos tempos



XXXI.
Amamos uma vez
e outra vez

Uma vez e outra vez
nos escavamos

Ah, asilo de íntima história
Ah, salobra terra e arqueologia

Como decifrar o prazer
ânfora-descoberta

Esse Enigma
de pêlos, pirâmide de hieróglifos

Se o encontrado é já perdido
uma vez e outra vez



XXXII.
E há os que partiram
A buscar óasis

E os que imaginaram
Não haver

Os que partiram
Não voltaram

Os que ficaram
Não ficaram



XXXIII.
Selo de saliva onde o envelope íntimo
das tuas sedas,
endereço certo do meu prazer por extravío.
Mensagens alheias nos servem,
está claro,
no breu deste quarto.
Como está claro que o amanhã
nos encontra
desencontrados em signos
e outras tantas filigranas
que, se todas dariam mais valia aos selos
e às páginas amarelas, lembranças.
Nós dois, envelopes,
que em línguas nos abrimos
e se calamos
melhor nos lemos que entregamos.

Selo de saliva onde o envelope íntimo
mensagens alheias nos servem

Carimbo de batom
me remete para o local de trabalho



XXXIV.
A distância fica cada vez maior
quanto mais se anda

Porque é uma distância
a buscar outras distâncias, oásis

Porque, facetados, uma só hipotenusa
não nos basta, diamantes

A distância fica cad vez maior

Fica cada vez maior a distância
quanto mais se volta



XXXV.
Espalho teias
onde me faço canto

E teias
faz a solidão

nos meniscos da noite

Sonhos e ilusões, é certo, caem
feito moscas

Mas eu ainda
sou aranha de mim,

que aranha maiior
entretece



XXXVI.
O sol dos teus olhos, imbolor dos meus
vãos, carne que conserv

Derrete o que de inlúcida tristeza
o copo contém
E de procelárias águas embebes
arco-íris e pontes.

Às vezes, são teus olhos no bolso
policias. Às vezes, do meu
vazio azul, consteladas ideias revistas
e quimeras.

O sol dos teus olhos, ao contrário
dos meus,
da vida refinam o sal, países



XXXVII.
Espantalho do coração a voar
um pensamento

As veias secas do capim
onde o coração

O tempo, essa roupa de cicatrizes
e bolsos vazios
O trigo das idéias de rapina

A fome é a espiga inteira ainda.
E se há silos
o coração da memória come
Oficina de joio
a vida,
que sol a si não aquece

O espantalho
esses braços a crucificar o dia



XXXVIII.
As caras, gárgulas
no jardim de acasteladas palavras.

A terra existe sim, presume-se
e mais a donzela.

O amor que nos move, catapulta
e fosse que nos cerca



XXXIX.
Quero, amor, do teu país
de carne arrancar

Qual faca de médium
os olhos

Pois que, neles, por inteiro
antes cabia.

Assim, o que em mim foi lágrima
em você seja refinado:

Olhos estrelados
sobre a mesa posta

E a companhia de
pequeno cão

(Nos verás, assim, por
dentro, amor)



XL.
A extrair o soro de vida
da própria vida, o coração.
Pessoa e peçonha em alquimia de pedras,
ser divisível e múltiplo
no vitral do ser.
A vida, um caleidoscópio em cada olho
Coração, colméia de zangas

Esguia passa a tarde,
nos Aquiles da memória.
Rasteja quase louçã uma boa vontade de ser,
antídoto e maçã



XLI.
Um cavalo a fugir do dom:
a vida

Quando há vento e não há crinas

quando se espera crescer a relva
em vez da aventura

Vida é algo
assim ao contrário da rima:

verdura viva que não aceita cancela
nem se domina

O que senão novas trilhas
e vales e montes

se labirinto em si a vida
a repetir-se sem sentido e saída

se a morte é um ímã
para o suposto norte do ser

que não atina?



XLII.
O sol lambia o delta pálido
Refletia, por truca, os óculos da tesoura

Extraí-la dali, porém, a ninguém fez rei
mas sentir-se, excalibur, livre desejo

Virou-se o corpo
O seio, onde o coração, delatava dentes

O pescoço, roxo, os esquecera
Olhos castanhos, abertos

O grito pintado nos lábios,
vermelho

Riscou-se o tapete, estrela de giz
Anjos brincavam



XLIII.
É um beija-flor a noite onde
a mulher é doce

O sexo, seu umbigo

Os recôncavos espraiam-se
Do ninho sai o sabonete, a ducha nos lava

De rotação tudo muda depois, gravitamos
outras conversas...

Disfarçamos nossos átomos íntimos



XLIV.
O dar de ombros da cidade
E de corcunda
a favela.
Local que a cruz dorme e
dói e rói
orro de carne
onde a vida em si formiga
e em dó solfeja.

Seio de terra

onde chupa Deus a fé
sem infância
e que é da vergonha obelisco.

Ali, onde mais rápida
que navalha
a vida
pra vida ser,
é que o homem dá socos no ar
e como pernilongos
cata estrelas



XLV.
A vida, teia clara

Dilúcida, mas
emaranhada

Cabendo ao poeta compreendê-la,
sem desfazê-la




XLVI.
Dois desejos siameses a mulher
tem no peito

Lambem as próprias vaginas
as bailarinas
e o amor que não dão
dão para si.

Do mesmo mal e coluna
sofre Deus,
a solidão mais pura.

À tarde, lavam-se os gatos



XLVI.
O pôr da laranja no castanho mar
do Contreau,
nas taças das bocas nos sorvíamos
A busca do prazer ali mesmo
no tapete da sala,
calor e código minha mão em tua vulva
telegrafava...
Curtas horas as duas agulhas do relógio tricotaram
para o grávido instante,
a dar câimbras aos gestos teu pai,
de pé, mirante.
Discurso não houve mas o silêncio...
silêncio de facas cortando
até hoje cortando,
na cristaleira das ideias, a prata da carne



XLVII.
A muleta telegrafava irritações abafadas
sobre o mosaico dos tacos

Era preciso resistir,
As bocas do corpo, reentrâncias das horas

O relato
inscriçnao sobre o gesso da perna

O dedo-tartaruga expiando
o olhar

Reescrevia-se a história,
psicografava-se um verso obscuro de algum poeta

Um disco dava voltas
às emoções

Anestesias, em seringas lácteas
Seus braços: camisa-de-força atada às costas

Às vezes, tocando a espinha dorsal
como espécie de flauta

Às vezes dedo
que se perdia mais abaixo



XLVIII
Destila-se fêmea,
barril de pele e sonhos envelhecidos

vâ trigonometria
lugar que as najas fazem ninhos

e pula amarelinha o coração

Refinaria,
adega de vinho quente

Dissolvem o amor todo mês 21 pílulas
destilando luz



XLIX.
O poema desfolha
a cama

Caderno de brancos
lençóis

Viver viver

Veia de outra caneta
o prazer



L.
O peso dos anos às costas
Qual tatuada tartaruga de colméias sem mel
de si não desprega.

Sólido sangue a guardar anfíbio coração.
Alegria e dor, pois picos

Espaço e tempo que o homem ocupa e vive,
a desova

O que pulsa sem saber
quer viver.

O movimento ideal é a falta de movimento,
a inércia do pensamento.

E que, sem do lugar sair, o coração se mova



LI.
Tempo, tempo
Máquina do tempo, memória

1968? 69?
As celas tem o tempo

Nem eu nem você, o tempo
Tempo tem o tempo

Calendários assinalados,
vidas riscadas

Dias, marcas
Quem os corpos trabalhava

anulando o tempo?



LII.
Teu estuário para onde convergem todas as silentes
quilhas e energias

Teu estuário onde tudo deságua às gárgulas
porões de óvulos,
nau de outro calado o amanhecer.

Não se pode vazio partir e é o que propões
numa fala oitava acima
ao nível procelário de contidas águas castanhas.

Carranca de São Francisco ancorada à porta
quase singrando jardim afora até ao mar de asfalto

Intransferíveis tuas pernas, abertas, verticais,
buscando o compasso de parábola que ri.

Teus seios, vulcões inativos onde agora adormecem
rios de lava.

Dois olhos & nariz: cruz, onde sem sentir me pregava
e corpo sobre corpo me crucificava.

Os cabelos que você não queria acreditar belos
a peruca: medusa.

Brinco que sempre me pareceu âncora no lóbulo.
Tua voz que saía pelas mãos, náufragas

Parti partido, pesado porque vazio
pilhado dessas jóias que a gente passa amealhando.

Astrolábios, ratos a bordo
Solitária viagem senão pela luz bubônica.

Anemais e anomalias mil:
constelados, meus dentes formam rosários pelo chão.

Rezam impropérios as velas, ajoelhadas ao azul.
Geme o vento ao ser profanado.

Longe o estuário, fêmeas águas em calmaria.
Intúo maremotos e dilúvios



LIII.
Bronzeia a pele em 18 quilates
a bola de Midas

Segue deltas o olhar,
biquinis encontra

Para de novo incidir como luz
em teu diamante

E, sem maiores reflexões, penso
que é pedra a verdade

Mil faces tem,
uma apenas iluminada

Que ou você bem usa
ou, no porta-jóias, bem guarda

para salvar justamente os dedos



LIV.
Serpente ser, veneno que
se reparte.

E mais sobra
quanto mais se dá

Segregar pois. E mais e mais
e sempre

Sonegar jamais.

Trocar de pele. Mudar
os tempos

Serpente ser nesses
calcanhares



LV.
Umaa lata de sardinhas põe a língua
para a paisagem baldia.
O beiço de terra rosicler, pés & agulhas de capim.
Tíbias flautas, tétanas tetas de metal
O debril enferrujar da cidade, o deletério
bafo de lixo
fogo-fátuo a fumegar verde

Os idos guizos, canhestros machados em cânhamo
As unhas e respectivas luas, pura dor a crepitar
sem as cartilagens da estética
(espelhadas faces facas fêmeas que só
depois nasceriam).

Os fetiches da religião do sexo, as cavernas
quentes da minha memória
pré-histórica



LVI.
Como eu ainda
estou vivo?

Ah, amor

O remédio
eu mesmo fabrico

e a poesia
tomo
duas vezes ao dia



LVII.
Chuva e jias. E o calor, o nosso
que o fusca fazia como de frio tremer.
O lusco-fusco da noite, a anatomia dessa noite
estacionada
(pátio da faculdade de filosofia).
Premedit´vamos sim fazer revoluções e nem
ao menos o amor tínhamos feito.
Penso hoje que a vida nos fez comunistas
cedo demais.
Rugosa rosa entre rendas: os triângulos pêlos
a geometria do toque,
e logo pelo ladrão a água
de outra eletricidade.
O amor, ah o amor
impossível como uma fimose
(a reouxar até do sorriso a pele)



LVIII.
Depois de ludibriarem o gato
da casa,
Garfos e grãos e um dúzia de
anjos em círculos
a bater asas.

Satisfeitos depois, vão para o cimo
das árvores
sujando então seus trazeiros
em caracteres de
jornal,

como fazem
os meninos do meu pa_is



LIX.
Pensamentos sem alfândegas. Fritas e infância
postas sobre a mesa:
os copos, de tempos em tempos,
deixavam líquidas circunferências
(às vezes nossas figuras de linguagem,
jogos olímpicos).
Outras geometrias a mão da cabeça sustia: pilastra
dessa engenharia mais pesada que o ar.
Sim, não fomos no que fomos
Mas talvez aí o segredo pleno: o não-ser
plenamente
Nem só coração, nem sem coração
Nem só tristeza, nem sem tristeza.
O belo, o elo
A verdade, a algema...

(As engrenagens que a vida aciona: duas mãos
a girarem entre dedos, dentes...
a industriarem calor)




LX.
Pássaro arqueando asas
ensaiando o vôo
e sem do lugar sir: amor

Esse estar junto e já
não estar
tal o ioió dos corpos nesse fio

que o fim do amor encurta
e virgula
por sobre outros fios



LXI.
Tanta pele de mim guardada
cheirando memória

Vida usada
porém não até não mais poder

De tanta
arcam lábios os cabides

Espantalhos, guardam acres
de silêncio

Reconhecer as ovais naftalinas
A entropia, inclusive

E achar larga demais
a vida




LXII.
Impossível o homem
sem poço
que a fundo se
conhece.

Porém se poço não houver
abrir.

E ao fundo do fundo
descer.

Subir, se vê depois




LXIII.
A vida faz sentido?
Tampouco o estilingue dos olhos
que raro acerta estrelas...
Torna todos bêbados a areia da praia
& o criolo tenta mesmo embaixadas
com a lua.
Tragas do meu cigarro
mas nada tens a dizer senão a suicidar olhos
nos teus próprios passos.
Talvez também sem sentido
mas olha a dança kwarìp das estrels ao alto
antes que surfistas,
sobre o azul tapete mágico, tragam
o Sol do Oriente



LXIV.
Cicatrizes maiores são as que não
se deixam ver

Entanto, delas sabem mais
os nossos fantasmas

Os nossos mortos-vivos

Que só nos mostram o que não
queremos ver



LXV.
Calcanhar de Isadora
um caranguejo
a memória a mover-se para trás.

O bolor dos anos que mais não servem.
Apenas para os irmãos menores
e outonos iguais.

Que pessoais são os moinhos dos ventos,
os sentimentos.

A cabeça gira em valsa de dores,
Coração em falso

A memória,
menina sem as sapatilhas



LXVI.
Solidão: esse instante
em que o relógio outro ritmo tem

E o ouvido outra clava
de sol

E a pele outra safra
de calor

E os olhos outra colheita de memória

Solidão: esse instante
em que sozinho goza o sexo

Istmo de farinha, migalhas
do contrato social

esse para si e por si
essa procura domiciliar do ser em si

essa metafísica que não voa

Solidão é entre as pessoas
a falta de química

emoção em economia pré-capitalista
e a monocultura da dor

solidão é quando em solo de falta
teus seios duas pedras filosofais viram

E a alquimia do teu sexo
mercúrio faz



LXVII.
Aqui ao vento, pessoas plâncton
semeadura das ruas

Esquecidas, secam
Caídas, dédalas raízes

Ajoelhadas, cavalos da fé
na forquilha dos dias

Eretas, eis cavalos-marinhos
em netunas cabalas

E a trilha de marfim
persignada

Guirlandas não são necessárias, pernaltas



LXVIII.
Eis a dor, ave
as picaretas do pensamento
quarto de dentro

Tal mina onde o coração
incrusta pedras
e a razão carvão escava

Sob vigas, o pensamento
a si sustenta
ou pensa

E por brilhos se arrisca:
arquiteturas faz
e arqueologias

Aponta veios,
move terra, cria calos.
Labirinto e fio o coração vira



LXIX.
Depois da luz
a hidrelétrica dos teus olhos
é da existência
o fio terra.

Ah, mãe das águas



LXX.
Línguas de chuva
mangas de camisa lambiam

O velho espantava esse cachorro líquido
a roupa sacudindo

A travessia urgia pois, cabeça
pêndulo

olhava de um lado, olhava de outro
de novo olhava

À esquerda, outra vez
(Quem garantia que veloz carro não viria?)

Dois limpadores de pára-brisas
negavam a tarde



LXXI
Pensando bem, desde há muito
venho andando
e tentando
achar saídas
nesse labirinto de pele parede
de pessoas
de um amor que leva a outro
de qual amigo
que dá mão a outro
enfim,
ruas humanas
que vão se desenhando, corredores
capistranos
onde vou assim me seguindo, perdendo
à direita
à esquerda esquinando
nesse dobrar e desdobrar do porvir
frio por vezes
de olhos sem ponto de fuga,
à frente



LXXII.
Primeiro, meu pai. Meia-dúzia
de cartas, gente bondosa

Na genealogia do outono luso
o jeito, embarcar

Selos nas arcas e malas, soletrados
Migramos, graves

O sol prometia moedas de ouro
Vida, pelo olho-de-vidro

Tioss, tias, abraços e acenos
Mambembe o porto

O resto da viagem: lenços brancos
ao alto, dúzias

atrás de nós e dos detritos



LXXIII
Eis, como disse Vianna, o verso exato
como corte de banha por faca

Eis a frase descarnada, limpa
do que é sebo e tíbia

A palavra posta à mesa,
até que oxigem os talheres



LXXIV.
Dias que, como asas, colecionei Cristos
em paredes e pele

Embalsamando momentos
a cada medir de rosários e horas

Dias que, como Eliot,
medi a vida em colherinhas de chá

Mamomé, cinco dédalas leis
em teu seio

Dias que, dos espelhos era o imã
repartida face

Encontrando solidões invertidas
ou duplicando problemas

Dias que, de memória era a casa
e eu dos retratos parede



LXXV.
Por aqui passou
a vida

Com a pressa
que fez o homem parar

e a próxima notícia
jornal esconder

Por aqui passou
a vida

Que fez quadrados olhos
arregalar



LXXVI.
Crescemos, mudamos, andamos
A evolução da espécie, dor hereditária
Uma lei: aprender
Por fios elétricos, uma época
transmitida

Crescemos, mudamos, andamos
Já em outros corpos
acordamos
Outra mente a memória
a morta-viva

Crescemos, mudamos, andamos
A boca da evolução
Cicatriz
Que a rigor já não dói, machuca
a estética de rugas



LXXVII.
Passeia sombras de naftalina
Sem pedigree o sol

No colar-de-pulgas, a tarde
e manequins da solidão

Entre um e outro poste
canhestras valsas e latidos

dando a rápida impressão
que a vlha angústia em 4 patas foge

Mas há a corrente e
o pôr-do-sol

Gravatas-borboleta insistem ainda
e cheiram a última

ou penúltima rosa do dia



LXXVIII.
Marmitas de sol estralado e feijão
há tantas como lâmpadas,
voltam tantas como estrelas

E vão e voltam

Trazendo sempre (entre a democracia de cheiros)
alguma dor à mostra,
bem assim como etiqueta

Um resto de ilusão
com os últimos grãos de arroz
E um desejo

Quem sabe, hoje, da mulher
o escondido riso



LXXIX.
Gari e porta-jóis, caminhão
de brilhos

Coleta de estrelas
Em dois sacos plásticos mais

Atrás do olho, esconde-se a lua
esgalhada luz

Tem mesmo pernas curtas
a madrugada

Galos acordam sapatos, braços
beija-flores bicam veias

Fabrica-se mais um sol. E a vida
sem brilhos



LXXX.
Sinfonia de gritos, opus 64
E o país tanto o diálogo queria
que para obrigar a falar prendia.
Onde a ordem vertical das celas, onde fala
encalacrada?
Ânus-luz em central de trevas,
picos térmicos, veia
profanada.

A idade da pedra de Sísifo
e o definido a rolar destino
Cinzelado, hinos.
Macrobióticas leis no mastigar, moinhos
dos ventos: suástica
no volver dos dias & trigal. Futuro igual
que debulhava.

O escaravelho das palavras,
atrás da memória-lagartixa: o mito refazia-se
O tempo não mudou,
mudamos
regenerando o que foi perdido
(para o ido onde calamos)
colméia extraída.

O escaravelho das palavras, a idade
da pedra de Sísifo



LXXXI.
De tão colorida em seus momentos
guardava-se a infância, sem usar,
como doze lápis de cor
talvez, quem sabe, para os sépios desenhos
do porvir



LXXXII.
O til das ondas acentua a paisagem
onde meus sambaquis

Estação de nafta ao sol
Corpo que alguém deforma paquiderme

Vontade marfim
Corpo que menino joga amendoim

Olhos-verdes-bala-de-hortelã
Cabelo cara suja

Pérola perdida dente no duplo colar
O nariz: ioiô de moncas

Onde a praia, bem aqui,
o til da onda acentua a palavra



LXXXIII.
Av Paraíso esquina com a Visconde
travessa da rua São Luís

paralela à N. Sra. de Fátima
que corta a Luís Fiorotti, transversal

à rua Presidente Kennedy, perto
da Pça das Cotovias

que ia dar na rua dos Girassóis
por sinal, sem saída

Ruas de infância, perdido paraíso
labirinto de que saímos

Para outros labirintos, íntimos



LXXXIV.
Leito que mais parecia divã, translúcida
como a camisola

Mais que flores, mais que rosas
merecia:

alguma palavra para a sua íntima sala
nos canteiros colhi

Comigo repartiu as bolachas de água e sal
& seu caleidoscópio de dores

O teto mais e mais descia, pensamento
que asas noturnas trazia

Teimava o futuro, em papéis de seda,
se enrolar, ardia

Repetiam-se as "instituições totais", como vozes
e ecos, sombra sobre sombra

Em camisas-de-força vestia-se
o inverno

Do mundo perguntou, perguntava...
e do país de dentro

Lagarta a crisálida tecer
onde, entre alfinetes de seda, debatia-se noite

Serzia-se a conversa,
tentando colecionadas agulhas disfarçar

para outras peles cruas

Seus olhos, alvos, perguntas atiravam
aos castanhos alvos dos meus:

jazia a paralítica língua
em líquida cama

Voltas dava a história,
entranhava-se

espanado parafuso de lembranças,
tentando um no outro pertencer

mas jamais súbito ato e local

Nossa história, sem fim, dava voltas
Voltas dava...

O próprio papel sequer sequiosas
abelhas de família atraía

Voava o boato abanando orelhas e brincos,
a loucura ninguém entendia

As víboras aninhavam-se no crânio, promíscuas
como dúvidas

Arado na veia,
alucinações esparramavam-se batatas

em alqueires de quimeras

Inútil arguir por enxadas e celeiros
À mesa as cadeiras sentads de bar & esperas

O tempo nos separava...

"And the hands of the clock still
knock without entering". no dizer de Merwin

O tempo, entre nós, cavava longe espaço
aberto por dias, ruas e destinos



LXXXV.
Enquanto eu
atirava as primeiras
pedras dos rins
nas
estrelas
o presente veio
viu
e passou. Sob
patins
e corcundas quimeras



LXXXVI.
Noite e lama nos sitiaram. Helena das carambolas
cortava estrelas
As pizzas-asteriscos jaziam sobre
a mesa. A faca dividia a vontade, a fome dividia
A lamparina atraía ideias fixas e insetos.
As orelhas da noite
Helena, sem dúvida, a melhor das políticas
Roubara da noite o calor, dos meus bolsos o volume
O pensamento refratário desenhava terrinas.
Ainda mais depois: a vacina no braço
era da infância a menor das marcas.
Alimentando o ar, pernilongos
miscigenavam sangue e algumas preocupações.
A cama desse sítio, geometria
ângulos corpos côncavos de lado



LXXXVII.
A noite generalizada de estrelas
as fardas do poema

Ideias de pele grudam-se asteriscos
ao peito, camisa-alm_íscar

Os direitos autorais das ruas
o tempo que passa
imita-se a si: outro é o livro

Mão que raios empina
fios, algas
unem a represada eletricidade

Deltaforme's fios, labirinto
rocambole

Beijos apressados, asma,
corpos: rosa-dos-ventos nos lençóis



LXXXVIII.
Abre a Caixa dos Milagres anfíbia chave
o delta da água

Tem perns o pensamento, foge
da filosofia a miséria

Brancas são as pombas e o joio que canta: corvo
Grão gramático tua fala

Sabe a whisky íntimo a noite, a mãe dos viços
O mais a rosa de água

Estilingue, funda de água
e onde espartilho-pele-e-seda se ajusta

Amanhece então,
verdes arbustos expectoram pardais



LXXXIX.
Águas e coloridas
prisões

o quebra-cabeça
dos mapas

o homem qual pirata

o amor na boca,
qual faca




XC.
Polvos eram as mãos no enleio dos seios
Lábios ventosas bocas

Em poros e aqualinas, ânfora-mãe
Secreta a memória o ensaio

Espiraladas veias, alquímicas
Do tempo destilamos as impurezas

Secreta a memória, essas gavetas róseas
Do que é secreto

A memória, este oásis
grão-olhar por onde a mistura

Memória, movediças miragens
Tragam-te, musa, em mim



XCI.
Um lampírio de minha barba faz suas as grades
e decide luzir árvore de Natal.
Memória, mãe de leite. Ontem ela ainda de beijos
amordaçava. Postes de luz a mim somam sombras.
Bulício de ideias e vento. Penso
que ela me desaprendeu
Assim caminha o homem para que engatinhe vidas
a mulher. Cálida pele
Entre bolinhas de nafta
Que eu mais definida a circunspecta lua.
Meus olhos trespassam a vidraça, insetos
cada luz os atrai



XCII.
Teia de luz, teus olhos
Rubis de relógio que não dorme

Corpo de Baile em mão aberta, aranha
Presas de esmalte e sombra

O Cão-Maior ladra sua luz
Miocárdio em gravetos de 110 volts,

Vida e versos brancos

Vinte para as quatro da manhã: chora o relógio
E, em alexandrino,

Os verdes bigodes das samambaias



XCIII.
Museu da memória a expor pentimentos
meu retrato repintado

mil e uma noites nessa pela a óleo,
Retrato Oval de Poe e os 32 dentes de Berenice

Podre pera maçã de cera,
natureza morta no meio da sal

Volta ao local do crime o presente,
delimitando a giz o chão



XCIV.
Casa de móveis, habitantes cobertos
o IML às 17 horas

Almas, aves transmigradas viajaram
como passaportes mostrados

Quem identifica o corpo, a curva
dos lábios, ressecados, recebe outras digitais

Entreviu-se assim,
concha aberta, o colar de pérolas

Os arquivos da emoção
e o sorriso que sorrisos fazia

Beijo teus lábios, eu que adormeço...



XCV
Habitar o coração do corpo, terreno
baldio de mãos

É esse o crime e lugar
pródigo

Da fertilidade o próprio motor

Habitar a casa dos olhos, água-furtada
de outra casa

Sob medida, instalar-se
Crescer

Ocupar cantos tantos como teias
Inquilinos outros fazer



XCVI.
Pois isto a árvore tem de mim:
raiz relâmpago

Pois o que me prende inteiro
ao meio me parte

Pois o que é muda sombra
é também eletricidade

Pois o que é ser caminho
é no caminho estar

Pois o que não é da fome
é a carne abrasar

Pois isto a boca tem do machado:
o sorriso do corte



XCVII.
Não é manjedoura a boca
sílaba menina

É a língua, foi
para a grade dos dentes
Que hoje se liberta,
entre dentes, no dente que falta.

Bate numa orelha o coração
na outra mão
Extravia-se o país in róseo
labirinto ósseo

Tanto a vida fez
se a morte fala tanto faz
Vida, filhos na sala
o que nos fez gozar em silêncio?



XCVIII.
Selo de saliva e Deus,
o seio ortopédico das fraquezas

Ali, onde o coração faz bico
e a fé faz cama

Ali, onde tudo se perde
e tudo se transforma

Pelos olhos o ser decanta
o seio que sei cebola é cortado




XCIX.
O homem vai a braços,
em sei navega
a buscar o próprio sentido.

Monstro da lagoa onde a lua
faz o terceiro olho

Margens fechadas em si
flutua Ulisses
rios de mitos ao sol

Destino outro sabido
o homem não corre para o mar




C.
O caminho da volta
não é o caminho da ida,
mesmo sendo o caminho da ida.

O rio ao seu encontro
não sabe da volta o caminho
sendo ele próprio o caminho.

A vida do rio o sentido
e como tal ela mesma não volta
a não ser sua filha pródiga: a memória.

O caminho da ida
não é o caminho da volta
mesmo sendo o caminho da volta



CI.
Queiram ou não um só corvo
desfaz o verão
No ângulo do peito o morango
Motor mor

Verde-oliva a paisagem de olhos ogiva,
Policiais a cavalo força.
Raiz de luz no céu
de chuva
a trincar o azul da ideia
e porcelanas.

O relógio dobra a curva do arco-íris
e eu: nada fiz
e ela que a isto dá presença
e nada diz.
A pabliana palomba na parede é sem par
e cúmplice



CII.
Imutável é a memória.
Se o jardim tem margaridas
sempre margaridas
Se o pomar com frutos, sempre os frutos
Se horta e couves, nunca a fome

Longe de ser traça
ou perecível a memória

A imagem que se tem do ido e vivido
em nada muda jamais
se o passado ao presente não vier
e for comparado
Pois se revisitado, o amigo mudou
a primeira namorada mudou
o jardim mudou

Por certo, do tempo
a memória ou é lagarta ou mariposa

Caleidoscópio é sem movimento



CIII.
Nas côdeas do tempo
pão e dentes-de-leite:
a mesa quase posta por cupins
e uma eterna renda portuguesa
de formigas
a disputar cada migalha
dos meus oito anos.

Nas côdeas do tempo...



CIV.
A família toda no Brasil
e sua trajetória de moscas:

açougue, padaria, bar

Sempre o mesmo alfabeto Braille
nas paredes
de folhinhas e faturas

Sempre na palavra amor do verso
os tremas...

Não mais: comia-se, bebia-se,
dormia-se

E um só luxo: escola superior
para todos

Portugal tinha já ficado para trás,
dente-de-leite



CV.
Não correu no pescoço das ruas
o sangue dos morangos

E era o tempo sítio de sonhos
e fazenda de cruzes

As horas, buquês de contradições
e dúvidas

E a cor das manhãs
tangerina

Bebendo hoje o sol e a glicose
duas abelhas

Onde, em colméias, tudo se multiplica
caleidoscópio de vertigem



CVI.
A rua mastiga mastins, num clã de sons
Constelados sons em teia

Por certo, ladra ladrões a noite
e o ladrar o sono furta das horas

Manhãs de baços olhos, rubros
Trancadas pérolas justas



CVII.
Seres abstratos em vernissages de Igreja
quadros sem luz, abúlicos

Faltam girassóis, falta vida e vento
e até o que de sobra têm

No entanto são óleos a colecionar olhos
feito borboletas

Ai, devia saber que a fé não pinta quadros
Cordeios conta e tosquia




CVIII.
Olhos sem transparência. Olhos
Isentas pálpebras
Naja a serpear entre nós

Sexo de sereia, sutiã de pele
As sílabas do mergulho

Uma estrela de Davi
Talismã, mão e ímã de favores

Pele de seis horas, portanto
preto país paraíso
sépia recordação de luz senzala.

Trêmulos cabelos
de querubim caligrafia
Ábaco de dores.

Olhos sem brilho, decifrados
códigos
Sem franjas, mirantes

Olho-de-vidro, opala pelo homem
dilapidado:
a vida para cortar usa diamante



CIX.
Alfinetes colecionando asas
de borboletas sambistas

Fantasias a vagar fantasmas,
fevereiros

Ah, o museu de cera
a memória não visita porque, é claro,
dele é peça e parte

Ah, estranho produto
que para embalsamar a memória usa

Meus carnavais, meus anjos
de alfinetadas asas...



CX.
A vida como dois pedacinhos de
chumbo extraídos.
(O coração segundo dizes não
foi atingido).
Outra órbita onde
o dia como pão se dividia em trincheiras.
Entre cafezinhos a socialização
das perdas,
o Cavaleiro da Esperança,
a marchinha antiga
e o amor que na carteira te acompanhou.
Voltas aos dois pedacinhos achatados
e a memória ainda fere as carnes
que, exausta, nem mais foge
a íntimos alvos e a peso maior.
Acrescentas açúcar no cafe



CXI
É tudo da dor e alegria
oscilantes mercúrio

Não importam as baixelas
e o equilíbrio

Sabe-se do mel por outras colméias
e simetrias

Recepciona-se, em nós,
abelhas de dor

Extraindo, em nossos canteiros,
rara ambrosia



CXII.
Crustáceas mãos e pregos
A chuva o instante enferruja e crescer faz o rio,

lavndo as culpas

A centopéia de mulheres, velhos e crianças
pé ante pé, em meu barro deixa lá suas marcas.

Mais dia o dia reluz diamante no dedo,
dilapida meniscos

Cravejadas, as duas aranhas esperam
das ave-marias as asas

Orelhas sinhos
e labirintos maiores.

De abóboras caminha o dia a passos de andor,
do santo cegas pombas

A procissão,

rio ao encontro do que jamais se encontra,
volta ao seu início.

A capela, gaiola no jeito,
detém o menino e estilingue por meia hora mais



CXIII.
Túmido, o pequeno coração
procura seu lugar no corpo de Mariana

Vislumbram-se coleções de orelhas
sobre pálidas páginas

Crucificados vitrais
de asas

Acupuntura de mágoas
O amor, quando não sabe ser

Aberto o poço entre nós
Ícaro, descia-se

Para os sequentes descalabros
dos sentidos



CXIV.
Sol a pino, olhos de Colombo
por instantes

Ardência que não aquece afinal o poema
pois nada além disso

Olhos,
itinerário

O que provar mais se as procelas
são para si como estão para as caravelas

Se a bordo a palavra,
astrolábio

E a tripulação em si desconfiada

Não falo, porém, da viagem
mas da âncora

Que é partir para dentro, e ficar




CXV.
Há tempos
que a mesma pele trazemos

Sépia, como a camisa
do verso

Suada, riscada,
mínima

Tempos há
que, em arestas, nos arrastamos

serpentes estranhas,
a mesma pele não trazemos

Que, sem trocar
a única, ao fugir, lá deixamos



CXVI.
Borboletas cruciformes ao lado
do Olho de Boi

Uma só mandíbula caída no ringue
As dúvidas pões no vaso

& te recusas a sair dos caramujos
marajoaras

Brincam tuas palavras
na montanha-russa da minha orelha

Cuspo girinos na pia

& vou morder as vermelhas bocas
das melancias



CXVII
Vive enquanto não chega
substância e tinta

Morre quando da veia
algo escorre

Assim é o poeta
de aracnídea mão e teia

Esperando Deus
enquanto destece a queda



CXVIII.
Primavera: o calendário mentia. Flores pretas,
abriam-se os guarda-chuvas

Almoçar com Mariana!

Arroz shop suey, carne desfiada
com brotos de bambu,

sopa de barbatanas de tubarão.
E silêncio.

Repetia-se o prato: silêncio

Shelton e Hollywood, o isqueiro riu
para os cigarros

De lado, como diria Oswald



CXIX
Amor só depois de muitas miragens
como oásis encontrado

Ou areia movediça

Há que se ter calma então
pois gargântua maior o desespero

Para não afundar de vez,
imóvel ficar: viver

Lentamente, lentamente...

Planejar a loucura, valise sem alça



CXX
O corcovado dos bois
O coração
para os toureiros.

A rosa do que é sngue
e vitória.
A vida do que é grão
e mito

O mundo antes e depois
da águ benta
Um boi santo dia.

O corcovado dos bois.
Sem mais verdades
que agulhas.

O toureiro vence,
perde a vida



CXXI.
Ovo de Cabral, versos de pé
quebrado

Mais que arroz-de-terceira
brado à beira de cela

Tordesilhas e seios e signos
de Brasília

Reserva indígena
o coração

Lágrimas e arco-íris,
setas

Pulsos e veias descobertas



CXXII.
O país só se sabe
se uva
na adega de dentro.
A vida: a umidade.
Você a desaguar
seus segredos em suas próprias
nascentes.

O amor só se sente
se pisado
como uva a teus pés.
A vida: moenda
que pulsa.
A água às voltas
do seu próprio centro e moinho.

O país só se colhe
se verde
a madurar raposas e fomes.
A dor: a safra
O silo da sua própria sede
na miséria da memória.

A paixão só se semeia
se vento
a esparramar grãos



CXXIII
Esse casal de velhos, por exemplo

Dédala indústria de suor, mãos dadas sempre
Quem sabe amor, insegurança...

O que dizer
Uma mão é mais forte que as duas livres

Onde as suspeitas?
A vida afinal forjava provas ao contrário

E, não raro, condena a tocaia dos dedos
no martelo das palavras



CXXIV.
Costela partida, vulnerável
coração:

Confessava-se

Quem mais se ama,
entregava-se

Então, sem morrer, morria-se
mais



CXXV.
A noite, mina de prata
possível

Onde o garimpo, peneirar brilhos
pensamentos

E o que é não sendo
às bordas

Deus cisca estrelas,
passeriforme

Breve os resíduos da manhã,
breve o vento

Que, de composição única de
indivisível mistura,

vive a dar feliz exemplo



CXXVI.
Braços abertos, o espantalho do Pão de Açúcar
mudava o trajeto de aviões

Poleiro de ideias, azuis. Um bonde, Sísifo
postal de olhos

Tal hora,
que um homem encontrando a paisagem
não se encontra

O caminhar lento, pelas ruas da cidade
mortos a pari passu

Cemitério de neon, inscrições, cidade.
Céu de cinco estrelas já



CXXVII.
Nos terçóis da democracia
a eclipse da lua.

O dia
era diarréia

Soletravam rugidos
os leões.

Nas esquinas, nordestinas. E seios
ao destino estendidos

Carne seca, hinos



CXXVIII.
O tempo, faca que passa
Que tão rápida ou afiada se não vê

Mas da invisível faca, a fruta
Guarda o corte.
E só então apodrecida
Carne e caroço
É que Ee fome aos dentes da memória.

Que de outra consistência
É fruta ao tempo mais resistente.

Porque é dessa árvore, o tempo,
fruta mais verde.

E propriamente por isso
Que ao dono do pomar pertence.

(E não é por ser amarga
Que não pode
Por outras infâncias ser roubada)



CXXIX.
As tardes eram sem lona
e anfitriãs
de circo.
O dia trazia a cara
pintada.
E a alegria
era doméstica
até roubarem a infância.
E a rede



CXXX.
Sapos crucificados & corações

Há uma claquete-navalha-de-barbeiro
a cortar os mais belos sonhos

Buquê de teclas
e dedos

Meridianos dividem minha cabeça, atlas
por um deus-menino rodopiado

Que súbito abre os
olhos e tem um país sob o dedo

Minha orelha sangra de rios,
dois países iguais meus olhos

Mas o menino da minha infância nada quer
o que ele quer é me conhecer onde sou mais feio

E vem até mim em duas caravelas



CXXXI.
Libélula Ee a
intuição
que a razão igual
menino
não pega.

Para trás joga a tarde
sua grinalda



CXXXII.
Tens os cravos
e a roupa dos cravos: a ferrugem
que tempo rói a carne.

Tens do amor
a geometria das câimbras: pernas juntas
de compasso em centro.

(Aí onde a alturado homem começa e que, ao meio,
custa chegar).

O mais não
tens: põem-te na boca palavras,
enigma amestrada




CXXXIII.
A liberdade ao vento
antes tem estábulos de ferraduras isentas

Antes tem o dom domado
e verdes lembranças maduras

Antes tem os debulhados grãos da fantasia
e do milho

Tem depois o homem
e o chicote

Ou simplesmente a fuga. E a memória
desse peso

O sésamo do vento, a liberdade



CXXXIV.
Outono: do calendário caem as folhas
Secas digitais do tempo

Que também a mim desfolha

O que sou quer se desenhar simetria
e quebrar da infância a cor

O que fui para ser: a seda das horas
à volta do pescoço da vida

Para trás, nos braços da memória, caída

O que sou transluz, perde-se ao refletir
espelho partido teia

De barba meu verso por fazer
e coração em pele de lobo a ganir

Homem e sua árvore genealógica
planta carnívora a caçar lembranças a voar




CXXXV.
Calados, os deuses
triangulavam mãos e braços ao queixo, pensavam

Perfilados personagens

Nos paralelepípedos tabuleiros
enxadrezados das ruas

Perpétua é a cor da liberdade
mesmo dispersa

E a pétala pele icor
ferida aberta

Perpétuos, no claro-escuro das peças,
revezam-se eles, os deuses



CXXXVI.
Entre copos fingiamos ver satélites ao alto
e ovários como planetas
prenhes de luz.

Hegel & orquídeas efêmeras
a História manchava outros lençóis, salivava
e era por demais pressurosa

Entre cigarros, Thanatos
sorria depois:
a História seguia os dormentes das cicatrizes

João Leonardo colheria, é certo,
espanadores de açúcar
em Cuba

A barriga da Revolução perdera a luz
e crisálida nos envolvia

entre copos olhos embebidos de pérolas
e ostracismos

Entre copos verteu-se o dom
de cunhar balas de papel
e tíbias rimas

Entre copos nos esquecemos
para a química das manhãs, alquimia
que pode ainda nos midar



CXXXVII
De coleira-estátua-da-liberdade há o buldogue
a vigiar o jardim
onde só lagartixas aquecem a pele fria
e o fruto é Esperanto

Sem braços há a estátua, heras
que o pudor tecem
e o boxer de borboletas em guirlandas

E notícias de sol em cacos de vidro,
muro proprimente
onde se lamenta o grafito

E um portão, velho, sorrindo vertical
para onde o cão não sai
e a boca do sapato não adentra

Há um buldogue de coleira-estátua-da-liberdade...
a vigiar o jardim



CXXXVIII
Dentro, o arquiteto
Invenção de Deus, igreja azul sem pilastras

Sixtino céu, teto
mas sem alvará de vida a vida

Começa Deus onde o homem ao meio finda
Ou anel, viciada trilha

O verso, luz. Intestino grosso o resto
Deus, parido universo



CXXXIX.
Deus, perdoa
se não consigo ser poeta
nessa hora.

Se te maldigo e a
ti culpo

Certeza que o mal é
cá comigo

Quem sabe seja mesmo essa
fome de infância que ainda trago...

Mas, Deus, se você cria o belo
pela infância sou mau negociante.

Assim o trato:

A Via-Láctea toda troco
por um prato
de sopa de estrelinhas



CXL.
O dia chorou na
janela

Escreve meu dedo
o seu nome

Os guarda-chuvas
espreitam



CXLI.
Lá vai eus e logo atrás escaravelhos
a rodopiar o planeta

Gira a cabeça doida em si, gravita
mais moscas: elétrons

Razão, seu patrimônio histórico
Sem amnésias e dismnésias e vésperas

A metafísica a voar como galinha
e alto teor bucólico

Porta-digitais a memória, a fé ladra
e neuros de algemas

Tudo ter nas dédalas mãos
Deus a prêmio em linhas imaginárias



CXLII.
A infância põe os olhos no rosbife
onde duas moscas parecem jogar xadrez

Num instante, duas Gomes da Costa, à mesa
riem desses tempos

Sardinhas encalham na praia do prato
Arroz branco, saudade

Tudo gira em volta desses anos
Elétrons, moscas, família

Do pai e rigor
Da mãe, instinto, a guardar doces como afetos

Saudade de quando não havia saudade
Grãos, flores, tempo: mesa e moscas

Batatas, sentimentos e olhos.
A vida insistir e brotava, grelava e nutria

Agora tudo se habita
pela dilúcida organização das teias

Esquinadas em cada dígito e labirinto.
Viver, condicionado a viver...



CXLIII.
À tarde teimavam os dias
ser uniformes como caligrafia treinada

À noite o cheiro forte, embebido
na camisa e pele: meu pai

Que do açougue chegava e trazia
moedas muitas

Que eu construía o capitalismo de infância
numa só Torre de Pisa



CXLIV.
A primeira casa no Brasil, lembro
foi na Vila Gerty

Sala, quarto, cozinha
exatamente

E um só banheiro ao fundo
para nós e outros vizinhos geminados

Tudo ia sem perguntas, tudo simples.
Sem dúvidas a força.

E o dinheiro começou a sobrar
para a geladeira
e para o símbolo sobre a geladeira

Para o primeiro papel higiênico decente
e para as rosas de plástico

O feijão tinha o mesmo gosto pra todos
mas diferentes ideias nutria

Na sala, o Sagrado Coração de Jesus

Na parede oposta, Einsten
de língua e tudo



CXLV.
O sistema de cheiros, biografia
de fedor 1959-1967

o açougue na rua Luís Fiorotti
os dias em tíbias

um cheiro e um nome: luso-brasileiro
as gramas que me faltam

e eu que nem podia ver sangue
então salpicado, celofane

À noite mais uma aula de moscas:
científico e átomos e elétrons




CXLVI.
Por terra a vida, maçã a cair
O verde paletó da paisagem

Seios de terra ao longe
e mais aqui os terrenos baldios: infância

Azuis anos, anos-luz

Onde alegres alecrins havia
e das dores primárias só se sabia

(detrás da persiana
o futuro de nós se escondia.)

Com a vida tíbia dor
e os calos que a carícia mal feita imprime

O tempo: moscas a vestir
de sardas as moças nuas dos calendários

Sépia memória sardônica a sorrir



CXLVII.
A saudade vai e vem como cadeira
de balanço. Vem e vai

Animal doméstico o coração
tristeza angor_a, a vida em viveiro

Palavras, palavras
e mais palavras em poleiro

E os direitos civis das pombas
a sujar os bustos da memória.

(Em colos de vime
o pensamento balança a tarde)



CXLVIII.
Fazia lá a tarde seus vícios, ardia
E fumaça algo preenchia.
Os velhos se debruçavam
Sobre o que foi
E eu sobre os velhos me debruçava.
Meus olhos, desde então, não cresceram
Ao contrário do corpo,
Como que para suportar
Sonhos a levar.
(Esses embrulhos que se fazem
E que não se entregam).
Nas duplicatas dos dias, porém
E do sentado dever
Inúmeros os pacotes, postos
Nos pátios do esquecimento.
O corpo, sim, seguiu
Paquidérmico
Como que para levar adiante
O peso dos olhos



CXLIX.
Já o dia abre sua mão
e bumerangues atira à curva do azul

Que vão e voltam
e vão

Descrevendo parábolas
e a gaiola gaia que há no ar.

Inumeráveis as grades do verão,
calor que disfarça a alma fria dos homens

Pois, à sua imagem,
nem mesmo no verão o ser encontra calor

Como a pedra não encontra
a andorinha



CL.
Os sonhos e os tesouros que existiam
A palavra ouro

Que, Midas, transformou tudo em todos
e que dela se afastou meu verso

Os homens: quase crianças como eu
estão hoje ricos

Ou pensando ainda ficar

Meu verso, tampouco, rima
Sem sésamo ainda, mina

De onde a vida extraio, falsa liga



CLI.
O navio trazia muitos barcos ao colo
Suspensos como dúvidas

Mais tarde alguém falou
Salva-vidas...

E aí pesei Deus
Barrigudos os próximos dias

Eu, que não sabia nadar
Não sabia...

Finalmente Santos soltei o sorriso
O navio, a âncora



CLII
Santa terrinha
doce mar

E essa anfíbia coisa
a chorar

Terceira classe, barco-berço
a balançar



CLIII
A paisagem, promíscua

Triângulos telhados
e uma fé, em círculos, ao meio

A ciência do
escorpião, o viço do vírus e veia

O dramático como forma
e fundo

O crepúsculo,
um músculo a dar cabo de tudo

Assim o homem às escuras
do que é triste

Uma pintura,
natureza morta e bandeirolas



CLIV.
Lua, lâmina de microscópio
meu laboratório

o ponto lobisomem,
a química das minhas águas

de filho para pai
a linhagem

não mais ousarei destilação
dobra-se a noite

por sobre outras dobras




CLV.
À noite
quando se unem os pontos
de luz
no
céu
não se vê
Deus.

Tudo fica porém mais claro



CLVI.
Leões convertidos, elefantes
e amendoins cristãos

Mágicas, alegrias
dardos:
pavões fincados por todo o chão do circo

Estrelas no ar, estrela
cruciforme
que o atirador de facas projetava

Já fora, sim, a imperícia
de Deus
começava a dar sinais



CLVII.
O quarto-escuro da infância,
a fechadura de luz

Na sala
as tias teciam teias nos cantos

Nas arcas retratos, amores sépios,
fetos e carícias negativas

E o dia ia,
outra vez vestido de noiva




CLVIII.
Que aranha a urdir o tempo, de sombras enlaça
o moinho que moinho não é?

Trigo que a vida mastiga, veias de pó o moinho
Coração ao sabor do vento, moinho

Desse latifúndio um pedaço, e a voz
liga-se a outra, dilúcida teia em nós

Sem luz esse parir, morre a noite
em mãos de parteira, Gioconda a sorrir

O dia em debrum, clara e gema,
traz fora da teia outras geometrias. E iscas



CLIX
Harpa no peito
o país deságua seus rios de cordas

O ventro soprano
pois longe leva ópera estranha

O bolero das coisas
em cordilheiras de dentes

Ostra semiaberta, digital de lábios
o grito o país autentica

O cravo da vida em coágulo
e longe a faca

Mas, o que também rasga idem cria
a vida no corta-luz, mãos

Farpa no peito o país, vagidos



CLX.
Meia luz, maçã ao meio, mito de mãe
Sereias a vinagrar nossa cama,
secreta secreção de menino

Depois o seio sem leite: a juventude
onde parecia até possível mudar o governo
e morder o próprio cotovelo

Depois a memória, que tatuada sob a farda
mostra seus algarismos de cela
e rosas de brasas

Olhos-ostra, pérolas de luz, cigarros



CLXI.
O sésamo da procura faz garimpo
o homem de si

E escava que
escava, de cara já fuligem

enfim, em estado bruto
a procura

mas tão logo e sem direito avaliá-la
propõe-se a troca por aquilo

que de mão em mão tem valor
e circula



CLXII.
As pálpebras-pedras do sono envolvem
o celofane dos olhos

Qual radiografia fóssil de animais
extintos

De dias, felizes e grandes, que
não sobreviveram

Do amor que tentou águas, anfíbias
combinações

Da realidade
que ensaiou lenta mimese

Enfim, tudo desaparecido
já que tudo requeria mais fuga que força

Que, dessa pré-história, a minha,
tão somente as pequenas espécies se salvaram

Para extinguir, aos poucos,
estranho apetite



CLXIII.
Lobisomem uivando para a lua da Esso,
gás lacrimogênio e lágrimas

a Via-Láctea desintoxica a poesia
o seio: a criança de colo

A noite é um sapato sem sola, asas nos pés

a horas daqui o Deus sol. E girassóis
que se curvam



CLXIV.
O picadeiro das ruas, as passeatas
mambembes

E lá íamos nós, mãos unidas
para as saídas das ruas, dispersos

Verter, sim, lágrimas de efeito moral
outra vez mais

Beber, sim, depois uma Coca sem perigo
vadiar entre carros

e nalgum deixar a dedo
o coração na poeira, e a escrita



CLXV.
Arqueada noite
Bocas: ratoeira vermelhas
Os lábios de Marilyn
Monroe

Guilhotinas de manhãs, dentes
salientes
Gravata gravura
e a noite roída ao meio

Enigma de homem
O ânus aperta corpo estranho
Serpente, sua boca
a fome dilata.

Sentado, que gato decifra a tarde?



CLXVI.
Reláogio quartz da saudade
em cartão-postal

Pégados são os desejos a subir
e lágrimas de cal a descer

Cristo Redentor e
suas gárgulas veias tontas

A fé ao nível do mar
e o cheiro de suas axilas



CLXVII.
Flores do mel, cocaínas do vôo
onde a vontade é dilúcida colméia.

A ordem é uma rainha
prostrada gorda
a fazer bordados. Teia de sabor
a aventura
de doidas oficinas

A paisagem escancara venezianas
mas sobre si debruçada.
As pestanas odaliscas da realidade
é que nos observam.
Bem assim gueixa de indecifrável
sorriso detrás de um leque
de navalhas



CLXVIII.
Meu país por urubus encontrado
no mapa dos ares

Assim te encontro eu
a fugires
de ti. Mas alça teu sexo
nas rugas do tempo
em movimento búzio.
Trinco de pele a guardar
segredos, líquidos
delíquios.
A primavera voa sonegada
a visitantes

O acúcar nos silos. Reféns da
despensa.
Onde podar o país
como roseira
A que braços a fé se enxerta,
latitude



CLXIX.
E há um poema
Dentro de um poema
Que outros poemas envolve

Mas, por aqui,
Roseiras não se podam
Mas as rosas



CLXX.
A flauta do novo tempo, serpentes
de fumaça
sobem para o espaço
transformando foguetes em supositórios
de um Deus
em diarréia constante.
O homem entranha-se no ânus
do universo
Escreve a giz a teoria do vazio
mas volta sempre aos
seus vazios
pelas medusas do ar, os pára-quedas



CLXXI.
Uma ceste de perguntas
traz o dia na mão esquerda...

Afiada resposta, única,
na direita?

O carro só pára quando súbito cão
morde a fuga

Interrompendo, no úmido chão, dos pneus
o eletrocardiograma...



CLXXII.
Nas pautas dos postes
canta o vento noites a fio...

A vida se dobra
nos alicates
do
tempo. (De tanta
escuridão e
de retinas tantas.)

Em tempo: o luciluzir de
pirilampos
e a democracia
que azula para a lua.

Verdugo país de auriverdes cavalos
no pendão do milho.
Estrelas que tesoura recorta
e alguma coisa dentro
de mim
ajuda a colar.
Para junto e pele coagular



CLXXIII.
Essa estranha coisa que às vezes, por
momentos, se perde, extravia
não é senão a mesma coisa que novamente
torna a crescer: é a paixão,
cauda que não pertence às lagartixas




CLXXIV.
Às pálpebras da noite
a varrer o chão de estrelas, Deus

Bruxo travestido fêmea

Sob o tapete do cabelo a poeira,
Suja dúvida

Cabeça a perder segredos cabelos
Pentes dentes, o ímã

Terra à míngua. Um pão é um pão
O milagre, nunca a rima

A ruminar estrelas
O poeta, boi em sua terra

(A minguante lua fecha parentesis)




CLXXV.
Por amor ou solidão ou não
Muitas especulações há imobiliárias do ser

Cubo de gelo o quarto
Íris de limão ao meio no espelho?

Olhos de rapina sobre a cidade
Asas de dez dedos e frio na espinha?

As estrelas, luzes de segurança
O verso do verso a vida?

Por amor ou solidão ou não
Uma arma o silêncio do prédio silencia



CLXXVI.
A Torre de Babel mais
que o céu
era alta. E mais
que ela
os homens.

Nesses andaimes anda Deus
a carregar
falsas distâncias



CLXXVII.
Aves de arame migram Hollywoods
Retirantes da Lua
mais e mais fora de si
O pior da loucura é esperar o Alkácer-Kibir
A lucidez mergulha, alimenta-se
de peixes &
Orgasmos em silêncio no xadrez das cobertas
de corpo negro jogado
Esquartejada, divide-se a História
em meia dúzia de pedaços
Diamantinos dedos consultam o futuro
bem assim órbita de olho
ao redor da uz
Anjo de cauda sobre nós abre as asas
quebra vitrais
Águas íntimas de Yemanjá



CLXXVIII.
Submarinos & domingos dentro
da piscina, boiando
Nem tanto uma água a natureza humana
por mais estado líquido e represa.
Meus olhos-periscópios expiam sereias.
Uma Atlântida, a cidade submersa,
coração escafandro.
Em úmidas venezas dois olhos,
arcos de barcos, passeiam balzaqueanas.
Ora pestanas, remos,
de uma embarcação de escravas ideias
para outros portos.
A tarde esgravata águas-vikings e cios.
Veludosas ideias de paredes e musgos
Pênis e peles de vison



CLXXIX.
O primeiro filme,
úmidos cortes

As mãos
no tácito tratado das tordesilhas do corpo

A mão-sutiã
espartanos espartilhos o mais

Tresanda-se hoje
no que é possível delta-agridoce



CLXXX.
As águas da rainha
Astrolábio
onde se aporta sorriso de âncora

Mas a porto algum
se volta por inteiro
por mais inteiras voltem as naus:

Espécie sempre de naufráfio
a volta,
salgadas as íntimas águas.

Moeda de prata, a lua
reluz?
O sol outros sóis brilha

Pois se para encher alguns,
outros baús
por dentro, esvaziamos.

Um sorriso há a pesar âncora,
suspenso ainda,
por sobre as águas da rainha


CLXXXI.
A sede da secreta seda
em secreções

Os delíquios, em pele de mim

Manjedoura onde nasce o mundo, o homem
Sem memória interior

Mas unido a ti
e para sempre em si punido

O medo, brinquedo
lavado de toda a infância

Em ação criativa
original a vida se imita



CLXXXII.
Como a caçar o bicho do teu prazer
teu olho aberto
fechou-se como armadilha,
cílios sobre cílios,
e logo então senti frios dentes de luz
libertando a veia, aprisionando o instante.
Só depois você usou das algemas, teus óculos,
nos pulsos da Teoria dos Quanta
e do Max Weber.
Só depois...
O quarto pelo avesso, ficaram as
digitais nos copos
e sem dédalas algemas cedo amanheci.
Quanto aos olhos, ah,
você dormia: pálpebras fechadas descreviam
o arco do sorriso



CLXXXIII.
A realidade, renda
de relações

posta às arestas dos dias
e noites

mãos emaranhadas

Saliva-se a teia acantonada
e há o beijo

Mãos alimentam-se
de insetos

e há o salto



CLXXXIV.
O corpo reconhece digitais, identifica-se a carícia
O amor suja-se dessas impressões

É desenho imantado, bússola

fechando o prazer

O amor, sem elas, escapa entre dedos
Não se retém

Uma digital, única, identifica o fim
e o passaporte de suor

Múltiplas as combinações, ovais
que individualizam

O que falta entender: algo elétrico no suor
águas mínimas



CLXXXV.
Eu me fecho
a quantas chaves não sei

De igual ignorância e número
o teu corpo

fechado
aqui no quarto

Calados, encalacrados
sem habeas-corpus prisões somos

à espera do indulto
das palavras



CLXXXVI.
Quase eu geometria de mão
à palmatória

Cartomante que deslinde segredos

Que por lei minta
e por mentira se fira

Dobras onde
não se desdobra a verdade, mas teia

Por séculos, digitais deixou Cristo
Crime perfeito à sua imagem feito

A sorte, como saber
se o meu sul é por bússolas norte?

Espelho inverso,
que certas agulhas o incerto, quase eu



CLXXXVII.
Era moleque ainda
e a ferrugem já estava na pele
dos velhos
e a asma era o relógio da tarde
e o gato vigiava o dia
e a alma do avô.
A vida ciscava agulhas,
fiava invernos
e coloridos catavwntos moviam a infância.

Mais tarde ventilariam
suásticas



CLXXXVIII.
Farpas de luz: estrelas. O universo
em cerca.

Demarcado latifúndio
dos poetas
onde se paralisia infantil sofre o olhar.

Metrificado universo
& como boi de corte dividido.

(Em limites, facas de fome
& pontos de fuga
o mapa de insossa carne).

Por trás de cerca possível teta,
gárgula via-láctea.
Que quando muito nutre infante lavra

Asteriscos e suas rimas de arame
ao vento...



CLXXXIX.
Amor, campo minado
de palavras

espantalhos de tergal e óvulos de asas
trator dos ventos e semeadura

safra de açúcar e fetos
cooperativa de beijos e facas

mesa posta, luz e garfos



CXC.
Prometeu, entregou-se às aves
O sexo refazia-se

Arquivo secreto, róseo
Ardia

Esfinge de carismas, sorrisos
Consecutivos e podres

Salsugem, nada conservas
E ninguém

Na mala da memória, de ti
Alguns pedaços

Sem destino preciso, na tinta
Dos dias



CXCI.
Um lúcido cigarro, dois lúcidos olhos
na trincheira de fronhas

Sem trégua as palavras, no olvido
do armistício

Loucura, o tráfico de Morganas
e amorfina

O menir ao prazer
armada tenda em cambraia

Amor, morcego em tâmaras câmaras de gás
Cáries do teu corpo



CXCII.
Nos jornais, um crime assim tem a memória
dos espelhos:

Estranhas imagens não mais se guardavam,
esquecia-se a cor dos teus olhos

Simplesmente: não mais se falava no caso,
outras fotos e tarjas, outras

mil palavras.
A cidade despertava, lavando seus rostos

Onde a mulher
eis os tridentes de esmalte do anjo

Onde o pênis como cauda eis a cidade
e a constante caça.

Entenda-se como quiser:

da beleza querem as cicatrizes
Dos búzios a umidade

Esperam rosas de batom as mandrágoras



CXCIII.
Ver só ser.
Olhos: neon a não ser
Poema para ser
questão fez de secar
a lágrima
e da caneta a veia azul

Vertida a ciência
sem parentesco
e bicas: a consciência



CXCIV.
Trem que passa, passa...
E esses fotogramas que são janelas
e caras de gente?
Cadê vocês que n_ão deixaram seus nomes?
Olhos de moviola interior
Cortes de possível montagem
Mas vale a pena mesmo
pensar agora
nessa pré-História em quadrinhos?
Aqui, a multifoliada realidade dos livros
em babéis a caminho do teto
Ah, línguas de papel
geração que puxou as orelhas dos livros
Pel_iculas e legendas,
Tempo que apagou a luz dos olhos
pra ver o mesmo filme



CXCV.
Pelo tempo trabalhado, o pensamento
como carvão em diamante.
Silêncios e cios
E da seda da matéria viva
e, ação sedativa.

Onde a arquitetura do sono, quando
traça não é o tempo
a imperfeição rói
e a bela escultura faz.
Luz rosicler que antes da noite
bate à porta
para contar teias
e urdir outros silêncios.

A vida se tece da vida assim,
nas agulhas do tempo

O pensamento, alfaiate do tempo
em vestes de seda
Que mesmo sob medida não vestem, talvez,
as medidas de um abraço



CXCVI.
É movediça a memória e some
como casa é movediça
posta abaixo
mesmo que memória seja e casa

Assim como património
e jardim
e verde e pó
não deixa vestígios, porque fio e andaime
eregindo outras estruturas e vidas
solidões e ruínas

No retrato sobrevive a memória,
não suas cores.
E sua casa é uma avenida



CXCVII.
Ambul ância ou viatura dá socos nos lençõis.
Algo coagula-se. Cristalfonte
Estetoscópio no peito da noite: mas é a própria
quem me ausculta. Caleidoscópio de sons...
Silencioso o crescer das unhas? Sinto dos poros
o charco e pulsar. Lábios de fardas mostra
a flácida noite por sobre dentes de ouro à cintura.
Ofício das madrepérolas, gárgulas gargantas...
Roldanas. Grunhidos de bicho, as cordas enforcam
o elevador. Ouço vozes, ouço passos. A porta...

O vento batia a madrugada como
um marido

Oswald de Andrade



CXCVIII.
Um trator empurra o azul
Que luz acaricia a catarata dos teus olhos
Filtra-se o potável
Embebido, o corpo cobre o jornal.
Mimeografa-se
A manchete
A casa parece querer voar
Pelas janelas.
Sucede que o amor desanima a energia
Criando o instante de perda.
Sente-se, como pode haver tanta repulsa
ao próprio cheiro.
Mas tão logo se recomeça, o que ímã não era
Já se esquece



CXCIX.
Estrelas atreladas à constelação & verdes
perucas dos morros
Grampos, centrais de força
Ao vento a ilusão é uma bofetada
em chapéus de palha.

Pégados verdes devoram a roça
Pulgas, lençóis de saco de farinha

A cidade outro linho que a imaginação tece
A memória pequena às costas, pesando mochila

O que sumiu na poeira?
A cidade interior, pés esgalhados
Os dédalos acenos
Vara & fruto à terra deitados



CC.
Marxismo e ventrículo esquerdo
em hiato de amor

Via Marguerite Yourcenar
São Paulo não cabe mais em São Paulo.
Na rodoviária das ideias (Grécias tuas ilhas)
a cabeça multifoliada.
E o sertão aqui de malas
a se mexerem, em cesto como mariscos,
e que buscam
o que o rio de dentro déspota pede.

Porém, alfandegária,
a vida abre e descobre outro crime da mala:
esperança, esperança, esperança
e num canto
pedacinhos de carne-seca

ai, bate no meu peito subdesenvolvido
uma cidade




CCI.
O pôr do ioió

Um avestruz em can-can

Uma teia
Estrela de castigo no canto do olho

Boca de lua

Peço, afugentai a vara da loucura
permiti meus olhos lóbulos

Mesmo no claro-escuro do poema
permiti a asa




CCII.
Velha carroça, véu de noiva, sua sombra
Tem atrás de si esse homem
rua abaixo lua acima

Caixas de papelão, ferro velho, quinquilharias
Garrafas, latas
Em forma tudo de catedral

Uma catdral, digo agora, sem metafísicas
Que ameaça ruir
De cordas ajoelhadas e lassas

Rabo de salamandra e vivo a se mexer
Cauda sob rodas a carroça,
Extensão quase natural e sensível

Onde é músculo também o homem e se prolonga

De mim, mais rápido que ladrão, leva
Um pouco daquilo que nos outros pesa
Ou é contrapeso, pois que é apenas pena

E fico eu, entre idiota e perplexo, a pensar
Que há outras carroças e caudas
Que, se cortadas, novamente crescem

Não nos deixando direito crescer



CCIII.
Salamandra pele escafandra
que nas frias frigideiras do pensar
ferve. Moléculas de
gelatina
Símbolo de infinito:
Brasa em ponto de vara
e mão de menino.
A ciranda dos elétrons na inércia
da pedra
A vidraça intacta.

E o ser
que da mão não sai



CCIV.
Indefinida a fumaça
assim face em véus de odalisca

Mourisca, neblina em cor
e dela o homem é motor, coração de tudo

Fogo-fátuo. Vulcão de vida
onde, sem chama, o motor da morte se industria

Porque não há lanças
a cidade é um dragão a dormir.

Porque já polia
o dia renasce cinza, asa de pardal.

Arde a tarde sem a carne aquecer
& do que é fuligem face, do coração é carvão

As chaminés, giz gris no quadr-negro do céu,
escrevem já o que se sabe



CCV.
Chicote de sonhos, céu azul
dentes de milho

Morde o vento o cavalo
da infância

Das crinas o pincel do arco-íris



CCVI.
Pernas em tesoura,
que ao teu sexo me unem,
cadê o gume
do verso
e a vida que a pele transluz
e fatia?

O poço de desejos
seca a cada moeda de esperma?
Meu corpo te descobre
ao teu cobrir?
A cicatriz de memina
pra sempre carregas
e negas

Por quem tua sina dobra
e noites acordas?

Ai, a vida te corta
e percebes



CCVII.
Celas contíguas abertas
entre elas?

Algemas, elos?

Não, o amor é o
não é.

Um a outro se prende
já libera

Um clips a prender
o arco-íris



CCVIII.
Qual capitalismo sentimental
a troca de olhares, confidências

a troca de histórias e dismnésias,
saliva e orgasmos

O furto, a posse
onde a mais-valia das águas

Onde o corpo, cama sem pregos
ego sem alvos

Ah, entre nós, o fim do capitalismo
a troca de águas

Um soco-inglês de anéis, tua mão
órbita de brilhos



CCIX.
Você e eu, qual sociedade
de judas
nossos beijos de lado.
O desejo crucificava mesmo nossos corpos,
de carne e prego
Um anjo eunuco e azul, na parede,
ventilava o quarto?
Um frasco de perfume teu corpo aberto,
estrelado,
por sobre antigo puído colchão
que, decerto, aninhava serpentes de arame.
Qual batismo em pia de salgadas águas?
O tempo espiral nessa árvore,
paraíso impossível de uma só vez destilado.
Por mais que a fé lavasse
a química de Pylatos
Eminência Parda sempre a noite, a realidade
de presépios



CCX.
A memória, velha e grande casa
de capistranos corredores
Quartos que se trancam, outros
de secretas portas
onde a poeira se deita
e estica dos cobertores as filigranas

A memória, cupins a deitarem
essas camas
onde assoalho o ranger dos pesos
que paixões foram
e, instantâneos, se emolduraram
eternos sobre a mobília.

Uma mão espana a memória, feminina



CCXI.
No corredor do 7º andar
a noite revistava os bolsos da pele, apalpava

O calar das bocas, o alfabeto
das mãos

As roupas, claras
camuflaram-se às sombras com a poeira do chão

Quando, súbito, num triângulo de luz
abriu-se a porta do elevador

trancando a percepção
O ponto de luz, do radar, nos olhos do zelador



CCXII.
As janelas batiam asas de anjos
Amamos, porque era mais fácil

A mimese r_ápida ao calor,
cor, forma e cheiro

Ah sim, nos devoramos. E chovia



CCXIII.
Milhares cálices do teu corpo
em festa, suor
A dupla entropia, sucos

Corpos eletrificados, concentrados
de instantâneas químicas

Verossimilhanças de lobotomias,
púbis depilado

A mona-lisa sorri dentre as pernas
e ao fundo ilhas embebidas

Estende-se, sobre a cama, a colcha
do mapa-múndi.
Em nossos países, desgovernos



CCXIV.
Duas margens que somos nós
o rio ao meio passa,
fio de distância que nos separa

Só as águas que misturamos nos tocam
nunca as carnes de lodo

(varandas movediças de nós mesmos
camufladas de margaridas)

Lado a lado com a vida
que lassa passa,
entre o limo das pedras e o garimpo de quedas

Siamesas margens verdes até ao estio
do veio. O riso da terra: teia



CCXV.
Ah coração

Que lógica usar
para entender o que não sentes
mas pensas?

Ah coração de sete
cabeças



CCXVI.
Coração, osso de ócio
Músculo só se emoção não houver

Tapete da razão, se razão existir.
Cinamomo choro seco é lá coisa que se diga?

Senhor feudal das estrelas?
tomara.

Fruta cristalizada que de vontade nem se come?
O bucho a fome prefere.

Arrisco: uma colméia de geométricas dores iguais
e só o tempo como hierarquia

Uma salamandra que por ofício queima
e que por destino é agora

fria lagartixa a fugir do rabo
que menino, de safado, cortou



CCXVII.
As ideias querem o labirinto achar
para brincar. E ali
se perderem

Ao descaminho todos os
caminhos levam
Incerteza o resto é. O ser sândalos corta
ao seduzir

A alma: leque de olhos de pavão
que espreita
e pele das ideias ao sol

O pensamento que eternamente
se pensa. A palavra
repetir
até nada significar
Para então e só aí exitir



CCXVIII.
Provas não há. Porém
o guri no internato, em mim,
ainda acredita
e Deus
procura
(identidade possível)
em cada árvore,
em cada folha digitada.

Diante de tantas espécimes e verdes
impressões
terá ele agido sozinho?


CCXIX.
Pôs-se o tirano a rasgar
o ventre do poeta
para tirar
versos.

Pôs-se o coração
do poeta a
luzir
sem tinta.

Pôs-se o sol, tardio



CCXX.
Repolho de pétalas portas
a guardar todos e tenros sésamos
Um segredo
a se fechar sobre si.

A florir depois
de inútil fome e safra.

A roupa isadora do segredo
que inda velho
veias à mostra não tem
e dilúcidas mãos.

O segredo sabe ser
se ao redor outros segredos faz
para em degredo ficar.

A vida em segredo
a alma, multifoliada carne.

Ou nada mais que meio sorriso de mulher
a trincar quatro séculos



CCXXI.
Dorme o queijo suíço. E os corações
já não acompanham os relógios

Silentes facas há
nos silentes ângulos de cal

Até ao pescoço um está com o outro
E razões mais que ouro

A terra é um vampiro de vontade.
Lábios de carmim a terra, em tetas certas

Um cão e mais outro ladra ali,
abrem-se janelas

Os galos de pulso despertam
mais sangue



CCXXII.
A quilha do Vera Cruz abriu do mar a vagina
e azul sua pele rasgou por treze dias.
Veio coração, mãe, irmã
o zoológico da infância na arca dos olhos.
Brinquedo nenhum veio
e nada
com excesso de peso.
A falta de malas só facilitou para os abraços
em Santos.

(Na alfˆndega as alças dos medos)

Outras vistorias mais depois:
fez-se o coração fundo falso para o dilapidado.

Erosão de instintos
Há muito cristalizei meu pé nesse estreito

O país clássico em ruínas



CCXXIII.
Chegou pelos passaportes
dos caminhos

trazendo nas malas (entre objetos e roupas)
o inverno da pele

a primaverão dos olhos e o outono
da vida

A quinta estação
em outros bolsos trazia, a memória



CCXXIV.
Estrelas no meu anzol,
entre o cais e o Moby Dick do pensamento.
Assim é o caranguejo da dúvida.
Façanha em melenas da bruxa,
louca roca que muda a alma tece

(entre sonos e sonetos)
as algas também secam. Veias,
sete quedas

Me banho nos teus porões
(de escorbutas águas e paralítico ar)
Beijo o astrolábio,
cálidas ilusões abraçam-me feito polvo.
Sol e solidão

enquanto houver lixo
há gaivotas.
Que a fome, acho eu, dela se come



CCXXV.
À tarde todos os gatos são pardais
bocas são gaiolas, dentes grades

a palavra ñ voa, ronrona
canta de alpiste a fome. O dia pia



CCXXVI.
Arma branca, a lua
agora principalmente que nada
acalma a alma.
Agulhas de dor costuram os tecidos da pele,
urdido corte que sorri.

(Talvez aí o dedo de Deus a alfinetar
seus bonecos de pano
feitos à nossa imagem e semelhança).

Acupuntura de lado
verdade é que, aqui mesmo, a noite
leva uns seis ou sete pontos em seus cotovelos,
escuras esquinas,
onde o vento desafinadamente dedilha
essas cordas vocais.

Uma navalha que não acaba o serviço,
talvez a vida



CCXXVII.
Acorda o sol e o progresso já está de cara lavada
e cheirando a água-de-colônia

Nas ruas a preguiça do verde

Outono de tesouras a cidade,
cavalo de cimento idiota a pastar

Cor-de-burro-quando-foge: sua cor
e pra cima sempre o imã,
trepadeira de aço e de si

Canteiros não há, as flores de areia são
De plástico as avencas

Para o bairro bolsos não traz a primavera,
pois Ee furta-cor do inverno o verão

Nas ruas, a preguiça do verde



CCXXVIII.
Epilepsias de Cristo, ruflam asas
os urubus

Miúdos de fé e banquete

A hóstia é a moeda,
lembranças e escalpos de Natal

Pensamentos quebrados
como nozes...

Taças de Sidra, Sonrisal, família
reunida, vozes




CCXXIX.
Rapunzéis de metro dão para a janela,
onde samambaias há menores
que não se desdobram & dobram, rebeldes.
O vidro partido ao centro
define, onde corta, assimétrica estrela
rosa ventrum.
Uma cidade apertando gatilhos,
desativando bombas
A mecânica da loucura um coração,
chapéu de três pontas.
Em todo caso, as ícaras folhas de Zaratustra
ruflam incessantes como aves e portões.
Uma realidade sitiada da realidade
a que me serve
Úlcera de solidão a me comer por dentro



CCXXX.
Daia ilícito,
Sem alvarás as quimeras

Flâmulas, colegiais
Dragões da Independência, quepes

Penicos ao avesso, policiais
cães

Mecenas, a memória faz
estátuas



CCXXXI.
Mercado: a fruta do peito
também em caixotes
se acondiciona: a vida é claro
impõe sempre o preço
da procura
a cabeça senão com as inquietações
do estIomago: idéia podre assim
não há que demais frutas estrague:
músculos sem as câimbras
da carícia
mas calos de facas
que, via normal, em cesária abrem
o sorriso da carne
O mais é de menos: quilos de ilusão
pra que pesar?
Se, bem assim, a vida o varejo é
a roubar nas gramas



CCXXXII.
Que paixão cheira a sabão
Que lava lençóis redondos e sexos ovais

Que tira a maquiagem da outra face
Que faz a barba do verão

Que desbotoa o mênstruo
e liquefaz a placenta do dia?

O que me lava a memória?



CCXXXIII.
O que passou não passou o que passou
não passou o que passou

não passou o que passou não passou
o que passou não passou

o que passou não passou o que
passou não passou...

Olhos fechados
a lousa negra da memória, a giz



CCXXXIV.
Estátuas na grama da tipografia,
anúncios de empregos

Diagramados canteiros onde nos plantamos
em dias de pombas.

Podia encontrar teus olhos
além o quarto de pensão onde a parede,

Emoldurando uma população de arroz
estátuas de justiça,

Projetava tapetes nos beirais do olhar
de noites acobertadas.

Podia me alimentar do vôo em teias
de hipotenusas e cantos,

Vasculhar mudo a noite
carimbando de dígitos as sombras.

E outras manhãs oferecer,
fatias de sonho como pão adormecido



CCXXXV.
Catedral da Sé e pastores alemães
O dia mordia, a paisagem à paisana.

De concreto as árvores e pardais assustados,
em meio a gritos e vagidos e nuvens
de efeito moral.

Os 17 anos corriam,
mas bem menos que os sonhos

Até quem sabe ao lugar de encontro das tuas pernas,
pedaço de paraíso que chera mal

Até hoje pântano de mim
onde lavo a alma suja dos dias e das ideologias



CCXXXVI.
O que não existe o homem cria
e Deus, creio,
ao contrário de pai é pia

Dedos pitam sal
e mãos virgulam o incensário ar
em nome do filho.
Assim tal serpente o homem
em volta de si,
quando o seu começo é o seu fim



CCXXXVII.
Se tenho arquivos e cios
nas gavetas
e versos que só traças lêem
e orgasmos de cinco dedos
e câimbras na fé
e uma paixão doente
em estado puro
o que me falta pra ser poeta?

O que me falta
para negar a vida três vezes?

O que me falta



CCXXXVIII.
Minha imagem no espelho
meu ímã

atraindo antigos clips
e velhos dossiês

gavetas, enfim,
onde os papéis são de menos

e dos fios a ferrugem

Minha imagem nada mais diz
e o mais ofusca

e vide a mudar de lado
o coração



CCXXXIX,
De manhã o uniforme azul-marinho
da infância, puído

À tarde um estilingue que mirava
pássaros de vidro

Bolinha de gude, papagaios, bola
pião, vida girando

Pega-pega, pau-a-pique, carrinho
de rolimã, gibis




CCXL
A infância sem dentes vende biscoitos
bundas gordas sorriem

aqui e ali a paralisia infantil
virou adulta
e pernas de madeira perseguem o dia

No Parque Dom Pedro
o verão é roubado das andorinhas
e policiais montam guarda
(suas baionetas cortam o ar que logo cicatriza)

Catracas há de carne viva
no Parque Dom Pedro
e ônibus alccólatras agora adormecidos

Nos bolsos
alguma emoção trocada...

O alfabeto surdo-mudo, a despedida
na janela do ônibus



CCXLI.
Uma das poucas coisas
democráticas ainda
a quase dialética noite de lua
a nos transformar todos
em lobisomens
a uivar
onde, por instantes,
dorme a fome
e o coração
na pressa desassossega



CCXLII.
Mão em concha abre o dia,
como quem liberta pássaros
Grilo o dia que parece, salta relógios precisos.

Súbito, sol a pino
é de cataratas nuvens, olho. E dos telhados
franjas de chuva

Os dedos do pensamento delatam a noite,
posta já em grades líquidas.

E são os guarda-chuvas, já teias abertas,
a imantarem as frágeis asas gaias

Mãos em dédalas grades fecha-se o dia
sobre o dia. A noite:
algemas de papel aos versos que a dor encerra

As chaves, as minhas,
em que prisões de vidro tingem-se rolhas

À volta da casa, vazio aquário de águas cercado,
sapos e sombras a noite industriam

Na varanda, sem companhia, a rede em riso



CCXLIII.
Os rouxinóis acordaram os lençóis.
Sirenes foram?

Sei mais.
Daqueles dias, como fumaça da mão,
escapa a memória

Chorar?
Guardam meus olhos oásis

Pois que há em mim, entranhado,
acuado escorpião
que sequer a ciência do suicídio sabe

E que a vida
igualmente ignora



CCXLIV.
Há uma luz-de-penitenciária que anda a sala

Vigiamos essa luz. Quietos,
fingimos naturalidade

A luz espraia-se, contorna contornos
cri sombras

As nossas sombras chinesas

Breve voltamos a amar,
ofício de grampos no segredo da porta do tempo

Breve a luz volta lua. E cria
o muro

Que real cimenta os olhos
e torna ateu o pulo

Rastros de cansaço, o sapato dessa luz
de penitenciária que anda a sala




CCXLV.
Como bola de cristal esfrego teu seio,
sem futuro ver na relação

Apenas mais um verso, outro livro
biografia de cacos sem brilho

Como as mãos à volta da taça láctea
em parentesis a vida

Buscando sempre a intrínseca lã
e sempre da colcha (dos olhos) o frio

Como seringueira e seiva: corpo
por paralelas e medula riscado

Na adega das nádegas vinho branco
ícaras saídas de anjos



CCXLVI.
Onde em pernas nos dividimos
à noite nos somamos

Quocientes de luz
Açoite de veias no cavalo de si dédalas

Sexo e astrolábio,
Como carranca navegar em mim

Barco sem o arco das águas: meu porto
sem contudo me atracar

Pois de ancoras a umbilical adriça
e a ferros a utopia

Escorbuta vida nos dentes do tempo,
calamares calmarias

Sete-estrelo perdido coração, o meu
na rota de dentro



CCXLVII.
Ao mesmo tempo orquídia de pele e estufa
fino talo das manhãs
por onde sobrevoavam nuvens: corvos a chorar.
Jardim suspenso, pernas pilastras
sobre o gibraltar do sexo.
A boca circuncisa em todas as flautas mágicas
melodias melosas
(o calafrio) dentes roçando o pequeno coração
e prepúcio. De meu lado, mastigo a carne rosicler
rios azuis dividem as pernas.

& também eu agora me deito
procurando dar possível unidade aos mapas
colcha de retalhos.

Acordando, pude então perceber a casa,
Botões, punhos de recém-nascidos,
no vaso da sala
em porcelana. Tapete quiçá persa na parede
por onde andei olhos.
Uma Inconfidente samambaia vinda do teo,
gaiola de vime sem ave.
Mais abaixo o pássaro no disco, que agora chiava
(e assim ficava)
E a nordestina rede: bicho-preguiça
numa selva morta em móveis



CCXLVIII.
Quase tudo, na sala, era inércia ou dormência
hipnotizada talvez pelo ritmo pendular do relógio.
Um belo relógio, aliás, em cujos detalhes
dois olhos perderam tempo.
Na estante, o tomo I de "O Capital" e Ulisdses
apartavem assuntos e forças
ou se preparavam para iminente confronto.
As fotos, dezenas delas, eternizavam instantâneos.
Aventei a ideia de pertencer agora a essa galeria
Quando ela, então, em pele de Gulliver,
arrebentou os fios do sono...



CCXLIX.
Fujo de Deus como quem foge
de dúvidas

a curva dos joelhos
pior curva

Quebro espelhos
varro do chão as geometrias

Estão meus pés em toda parte
de lugar nenhum




CCL.
Não é de quem semeia a primavera,
a primavera
De quem no arado a terra penteia
e a v e crescer nos sapatos.

Não é a primavera de quem, à noite,
não deixou dormir
e de quem, de sexo aberto, nos campos
primeiro viu.

Não, ao pai não se entrega a primavera
embora nua ao seu lado
se deite depois,
de outonos grávida.

Não, a primavera é de quem a terra tem
e aos outros cabe o parto
e as crises.
O homem, uma árvore seca: duas raízes




CCLI.
Vampiro de horas certas
a secar bois e velhos às soleiras
polvo de luz o sol.

(Triste boca aquela
que, por um triz, Ee antes faca
e cicatriz)

Tirante a vontade de vontades retirantes
tudo se aquece n caatinga.

Relógio de sol o cacto
a marcar em sombras o que é do homem
sede e hora.

Porém na caatinga há ainda
sombras que são finais
quando dos ares descem mais.
Aves do Paraíso tampouco parecem
porque longe são
do cantar e do alpiste.
Aves que das costelas carne não deixam
senão gaiolas em osso
e inquilinas ideias entre celas.

O sol tudo rouba da caatinga:
A lágrima inclusive,

que mal nasce mal fina



CCLII.
Cebola de l_ã, descobria-se roupa sobre roupa
do inverno e do olhar

Travesseiro de ideias, conforme o peso
dos dias

Falta faz o primeiro corpo
e os borrões, dálmatas, do primeiro verso

Outono diário agora
E nem ao menos sei se gosto



CCLIII.
Qual cacto represa
de mim.
Central de cios. Filtro
de horas
Relógio ócio de areia.
Mesmo assim
não há como desertar
a minha sede
de dim. Sou foz e
leito e sol
E o estio destilo
onde me crio raiz e rio



CCLIII.
Nossos desejos, marionetes
sublevados
agora nos emaranham
e, desorganizados, nos tecem.

Pressa tem a teoria do conhecimento
e suas pegajosas patas.

Pressa tem a trama das horas
a salivar paralisias.

Gato e novelo, a razão
grávida.

Frágil a costura do dia



CCLIV.
sse comboio de palavras, versos
que há tempos são carga

onde e quando não seja o lugar
a me dividir em estações

quando e onde em linha par
˜ão me junta mas separa

As pessoas entram em mim
mas alheias a mim se pertencem

por ser o comboio verso alheio
e eu a deitar dormentes



CCLV.
Estranha forma essa do
tempo passar
e a rir nos copos

Onde a vida não cabe
em sede

Mas em remédios


Para o sono dos velhos
perfeita demais
a arcada



CCLVI.
Me procuro onde me desencontro
pois onde já coincido
sou quem sei

O jogo é assim mais de armar
e obscuro
Porque desse vitral
meio ignotas são as sépias peças

Peças do relógio da memória
desmontado
onde, menino, fiz o tempo
por curiosidade
parar



CCLVII.
Ouço da minha mulher
que segundo Nostradamus
& Astrólogos daqui
Santos e outras cidades litorâneas
breve irão sumir
em líquidas mandíbulas.
A conversa não deu afinal em nada
senão a lábios deitados, sobre si unidos,
num quase sorriso.
Mas, sugestionado, o pé chutando já
esse cão aquado
que, de mansinho, vinha lamber as havaianas
e, se percebido, recuava
engolindo a própria saliva



CCLVIII.
A cidade, labirintos superpostos.
As retinas outras paredes
refratárias a calor.
Dois camundongos a procriar
saídas
de placentários lenços & lábios
labirínticos

O eterno retorno, o bilhar
dos planetas

Os demônios são pégados no veludo
da vertigem



CCLIX.
Deixa dar uma voltinha, João? Deixa vá...
E nunca. E sempre lá ia o João toc toc
como quem matava formigas
e chutava baratas...
Bem me lembro era poliomielite
ou algo assim
para o que não era equilíbrio & brio
e o que humor paralisava.
Se bem me lembro...
Dia de feira, ao lado da barraca das laranjas?...
Esquecer como das súbitas muletas
e parábolas pelos ares...
Das cascas do dia,
das risadas, da vida? Da canhestra vida...
tentando rápido se levantar



CCLX.
Razões há como pulgas, amiga
pra continuar na cama

Daí não dizer que chove,
pulam como rãs as culpas

os anjos usam galochas
e o mal, como sempre, é sonâmbulo.

Ah, os guarda-chuvas vigiam
a paisagem e...

s_o aqui, Inês, é liquido o amor



CCLXI.
Chave e mão
E, à arca, então é permitido falar
a língua de papel.
Uma foto: código Braille das sardas
E olhos, constantes e opacos,
o Morse da luz
não mais pestanejavam.
Súbito,
fechei os meus
Não antes porém que súbita lágrima
de tocaia
borrasse a dedicatória



CCLXII.
Pindurada
a lua estava no
galhos

Verdes as uvas
estavam

Mas nos caçaram



CCLXIII.
Os Comedores de Batata
de Bruxelas
a luz bruxuleia a fome

Ou Holanda ou além-mar
Atlas descascado como batata
em serpentes

Retorcidas raízes de veias
à volta da retorta.
Batatas de cor ouro: a preciosidade do preciso.

Mãos e garfos de luz
Tríplice
a ceia das enxadas.

Em arcada
homens como cupins do casebre

O quadro onde a fome
se expõe
Vidraças comendo ao fundo

a cor da noite.
Línguas de sombra mastigam em silêncio



CCLXIV.
Os desejos, ah, esses dnçam isadoros
Cortam orelhas, fazem arco-íris

e, velhos, brincam com as moscas.

Incontroláveis são suicidas
a destramar os sentidos

Se operados arrebentam os pontos
e criam da pele o sorriso

Se experientes são camundongos
injetando-se labiríntos

Os desejos, ah, os loucos...



CCLXV.
Uma dor sobre dor
e mais uma

Uma dor sobre dor
e mais outra

Conclui-se, assim, o edifício
humano

Sem mais engenharias




CCLXVI.
O coração, um cofre

pedra incrustada no peito
que dócil não se escava

Chave de segredos líquidos
Mas nos bolsos da memória sem volume

Relojoeiro aprendiz,
que distinguir ainda não sabe

O que por instantes brilha
e o que para sempre ofusca

Coração, muitas digitais



CCLXVII.
Pois é como diz todo mundo:
viver é preciso

Mas, cá pra nós,
mais sadio
às vezes
é o amor próprio fazer
que procurar

Porque, às vezes,
até o amor cheira mal

E a vida, amiga,
mais ainda



CCLXVIII.
Biombos não permite a vida
ou se dá de ombros

De alma obscura é já a vida no quarto
onde vivo a me despir de mim

Mas a que tantas gelosias e olhos pra dentro
se o vôo é pesado e poço?
Se a pele guarda íntimas digitais
e o calor, em mim, não me abrasa e basta?
(Se só assim, de luz fria, se aquecem os deuses?)

Sou eu ou a vida, Sto. Deus
atrás do biombo?



CCLXIX.
Motocicleta & globo da morte
a girar
& maravilhada infância
que ainda mal suspeitava da força
centrípeta e de outras

A imagem ficou, está
a dar voltas
no cérebro o pensamento
acelerando palavras e concêntricos
quereres
mas impossíveis são as fugas
das prisões
que nós mesmos construímos.

Domingo e menino
Às voltas do ponto de fuga

Exige movimentos o equilíbrio



CCLXX.
Procurar caminhos, perder-se
dificultar a volta

Retornar talvez
mas por diferentes picadas

Saber que há pássaros
mas deitar fora as migalhas

Confundir a razão,
alimentar de outro pão os sentidos



CCLXXI.
Angela A.R., 15 anos e bela
e bela e nua

E o que reclamavam todos
à queima-roupa
ao corpo frio coube outro destino

Descobriu-se 6 meses depois
e casualmente
que tal e belo corpo, conservado
e ocultado foi
por quiçá funcionário

Constatou-se ainda haver
indícios de saliva recente
nos pálidos
e entreabertos lábrios de Angela A.R.



CCLXXII.
A lua uma
hóstia

O céu esporra
estrelas

Deus goza



CCLXXIII.
A fotossíntese pelos olhos,
a clorofila dos teus olhos verdes.
A verdade é verde: raposa na idade das uvas,
lagarta nas folhas
deixando a vinha de anáguas.
Entre margaridas e dálias borboleta
a boa nova espalhando
que de sombra e seda a mentira
e pro casulo não volta

Cega o sol o pó de suas asas,
desce sua luz de crisálida a noite

A fotossíntese pelos olhos,
a clorofila dos seus olhos verdes



CCLXXIV.
Sei hoje de uma forma clara que nada resiste
por maior consistência
ou quietude
ou invólucro.
É real o tempo, deus maior
a desgastar a própria natureza do ferro
Deteriora-se, inclusive na memória,
a infância
e hoje nada igual valor tem
ou pela mesma lei
diamantina molécula transforma-se
dilapidada
brilhando por vezes
aos mesmos olhos
assumindo já a estrutura de cristal



CCLXXV.
O poeta não envolve
o que está já embalando de azul o pa_ís

Sem sentido aí seus sentidos
como loucos entretidos

e olha que xamãs
e dos românticos a cor romã a fé debulha

Ver ursas e andrômedas
que o azul luz

Que embalado em mim assim fico
cujo caramujo



CCLXXVI.
Essa formiguinha que o genial
Mário Quintana visitou

Talvez a mesma formiguinha
que agora versos adversos treslia

Orelhas palavras de tocaia
pernilongos no dicionário dos ares

Quiçá a mesma
mas de sorte outra, caçada

Sobre ela, aí
o indicador joga sua rede de suor,

a impaciência identificada.
E, é claro, a teia vazia do poema



CCLXXVII
De orelhas pautadas
ainda por cercas e matos e pássaros

o primeiro emprego, a primeira
carteira de saúde

fotografado por dentro
não se importaram com os outros contornos

pássaro que ouvia
por detrás dessa gaiola do tórax



CCLXXVIII
Nos andaimes do dia
uma mão.de.obra.prima

Em rima as
janelas. Molduras que
volta e meia
exigem a tinta das veias
e assinaturas

Lápis-laz_uli obelisco
alheio ali

Servente do azul entre
cordas e ripas

Vôo azul e pipas...



CCLXXIX
Teu corpo foge a hermetismos,
funil do meu.
Vinho a fluir branco
veias tintas, baixas velas
náufragas
braços na cama.

Sombras, ratos não mais
roem teu interior
ou por instantes não mais os sentes.

Em outra superfície estás
à proa do ser.
Faiscantes olhos a morfina
de outro corpo.

Dos epiléticos guardas os
movimentos


CCLXXX.
Como me prender a ti
se a mim
sou preso, tartaruga

Assim sendo
não tenhas pressa, amor

Do jeito que eu sou
só posso
assim te amar

Devagarinho, devagarinho

Por séculos, assim
anfíbia



CCLXXXI.
Arquitetura da noite:
andaimes de teias, tijolos, vigas e
nichos de sombras.

De quando em vez põe ovos
a solidão
e o calor humano se incuba.
O brilho da ira
também
num piscar de olhos.
E sempre
a luz da lua a lamber
rubros rios.

A noite busca o seu calor
nas dobras fêmeas dos homens
e das esquinas.

Sonhos maiores simplesmente são
os que resistem



CCLXXXII.
Uma gota, outra gota, mais uma
As ideias duras

Uma gora, mais uma, outra mais
Ideias mais duras

E mais olhos. E mais lágrimas
Peito mais duro

Pois pedra a ditadura não é.

E se pedra não é, dura também não
E se não gasta, tampouco sabão

Assim, que pedra não seja nem sabão
Mas trilha na própria mão



CCLXXXIII.
Branco entre brancos, percebo
Pelourinhos
andam
E a palavra ora invisível ora clara estala
Negro é judas diário, sagrado sagra-se
O mais mito
Branco é um cão no olfato
Preto e branco no país
A princípio
Nos seus meios ligam-se apenas
O mais ñ creio
Invisível ou claro, preconceito que estala


A tua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo

Raul Bopp




CCLXXXIV.
As asas das mãos ciscam
teclas:

o escritor, uma ave.

Em migração
sempre
À busca do homem
e sua paisagem mais quente.

Das muitas palavras a unidade,
revoada de patos.

Que, se antes a esse caçador
sobreviveram,
vivem agora às espingardas
e aos cães.

Mas tantas e tão alto vão
as p.a.l.a.v.r.a.s...



CCLXXXV.
A faca fere sem cortar
E se corta
já fere duas vezes:
a carne
e o próprio pensar.

Fere a faca uma só vez
se pelas costas for.
E mesmo aí a traição
de cor outros fere.

Dois gumes sempre a faca
no homem.
O arrependimento,
outra faca



CCLXXXVI.
As salas salazares, retratos sem grafito
de paredes nuas

Os homens quietos, o gato quieto
que compactua da preguiça de um país

onde a sombra não perseguia
porque de tão sombrio nem sol havia

Mas longe de ser quieta a tarde
onde, em paralelas, a tarde se dividia:

As grades,
essas que a paisagem degrada.

A tarde, ah,
dava nós em cadar;os de sapatos, suspensa

E as moídas lentes
dos óculos a cortarem por dentro, têmpera

Sai-se da infância
e do país com o passaporte do pai

Já de malas
desfeitas, dobradas mortes



CCLXXXVII.
Genealogia esgalhada, folhas e secas
porta-retratos dependurados

Numa árvore que é menos que árvore
porque igual não é

Prisma porém, de enrustida raiz e rama
biografia esgalhada

Assim o que foi não é porque sombra
a outras sombras somada

E o que é não quer ser
pois sombra mais sombra, você e eu



CCLXXXVIII.
Da primeira vez, eras assim uma
espécie de odalisca
a gripe
detrás dos lenços-de-papel, te escondia.
Da segunda vez, não sei
se me vias
Ou vias mais, por detrás
dos óculos-de-sol.
A terceira é esta, que fechas
os verdes olhos
aliás,
como limões, no copo de Contreau, espremes.
Líquida e certa, essa paixão
embebida leve



CCLXXXIX.
A memória, teia
espelho pegajoso, lento

Centro, denso: o mais presente
Extremidade, rala: o mais passado

A teia, estreito
ou canto

No diapasão não há teia
Há passaportes

Caminhos, espelho atravessado



CCXC.
Manhãs assinadas como duplicatas
Ah rua do Glicério

Por onde o mundo desce e sobe
anônimo e pedra

Ou de súbito senta e se expõe
como perna e ferida exposta

Da vernissage que me visita
e grifa a tela

Teus mendigos, putas, boys
camelôs, secretárias

natureza viva

Irretratáveis teus sonhos,
movidos a mais que essa tinta

conhecida por sangue



CCXCI.
Lúcido, o poema reverbera olhos-lux
Umbigo rubi, etnocêntrico

É simétrico o poema às visões da noite
e servo sem servir

Não é vetusto o verso
onde, pelas esquinas, verbera o vento

Mas é mais às vezes
bem assim vento ventríloquo ventre



CCXCII.
Açougueiros
de asas negras e trigo

Ao vento a cabeleiras branca
da justiça

E tiros



CCXCIII.
As rimas das samambaias. E entre folhas escondida
em mímese, a vida verde também

Que mais e mais se agarra ao ser tocada.

Sabe lá já seu destino de asas
esse trem de patas?
Sua cor e seda sabe também?

Vive por futuras rosas e dálias
ou é o instante, sem mais,
que importa mais?

Por que, Deus, essa insistência quase absurda
de viver e viver? Onde tal certeza?

Há uma pergunta a desfazer poesias. E uma lagarta
a roer verdes rimas



CCXCIV.
O poeta e seus olhos de vaca
nada afinal é orgasmo

Há só a ciência da loucura
Teoremas dos ventos

Rimas de feno e estrelas de giz
no quadro-negro

O poeta, poesia no pasto



CCXCV.
Biografia a dois, escorpiões entre garfos
Paixão de centeio e cáries

(apodrecia o dia ali a cada mordida)

Colchas, filigranas de dúvidas
Clima de chuvas, termômetros a cada palavra

Terços de fé e sexo de Cristo,
o pára-raios da psicanálise

Depois o amor, mais que fábrica de brinquedos
a água-viva, a eletricidade dos corpos

a súbita carícia diplomática e a paz
e gases interiores

De bruços as gelosias do sol



CCXCVI.
Às vezes, estando no lugar que estou,
penso que não estou

Ficando, sim, mais humano
e sensível e homem

Conseguindo viver o que não é
ora sendo

Na quinta casa das Musas.

Mas, ah, basta apenas que a realidade
bata palmas

Para que a poesia, no guarda-roupa,
depressa se esconda



CCXCVII.
Não foge a alma à soleira
do ser

Nem a pelourinhos
onde em teia a pelse se divide

A alma é no beco um gato
às portas de tudo

A alma é na fruta pássaro
de estações maduras

Quando não
em si apodrece, caramujo



CCXCVIII.
Ah, auto-retrato impossível. A dor morde o dente
Estigama de vampiro no espelho,
sem imagem portanto
que registre instantâneas morfoses.
Logotipo DC no pescoço
onde, às vezes, de balanço brinca
indescritível.
Por amor, sim, a disritmia
animal de sangue frio o coração das ideias
que, louco, estrelas até dez contava
e todas as frases de amor perdia
no labirinto da orelha
e todas as paisagens (por girassóis incendiadas)
o terçol do olho escondia.
Do futuro, hoje, a amnésia a amnésia
Marca só o presente o relógio, a ciênci do mal.
Bem sei: dentes de alho mordem a vida,
cada vez menor



CCXCIX.
O quarto. A sagração da
primavera:
orquestra de pernilongos

Não bastasse a vida
e suas agulhas

Agora esses operários noturnos
e suas picaretas

Ah, dodecafônica
existência

Ah, a noite é um
espetáculo

Palmas, palmas, palmas...





CCC.
A vida. Essa que dos guris faz
a culatra da noite

Bala de hortelã: infância
pequenos dentes, a metfísica de tártaro

Almas de biju entre os dedos da cidade
e faróis frios, lírios

Anjos de salitre, pigmeus da vida
Com mais ou menos um metro de sonhos

De tarja negra nos olhos a noite
e seus gatilhos

a disparar pelas pernas o coração



CCCI.
À minha frente o eletrocardiograma
gráfico de indústria

a contaminar de magenta
íntimos rios

De veludo o periscópio
embebido

Continente de sal a submergir
de entreabertas ostras

A vida, tear que tudo tece
líquidos fios

E o sábio coração, de caligrafia
primária



CCCII.
À saída da biblioteca: arbustos, bostas, bustos
a pesar na grama de muda gramática

Não reclama a grama
pois ao contrário
tem as verdes línguas por foice cortadas.

Assim, línguas afiadas, murmuram
conspiram

Gravitam muros, cercam casas
outras gramíneas

A raiz, a teia do verde movimento

Camões fecha um olho a tudo isto
à saída da biblioteca



CCCIII.
Na mão do homem o relógio
e o coelho a correr

A cidade tartaruga
pra trás
Os prédios pra trás
Os ratos pra
trás

Aí, como se sabe,
na verde relva dormiu o coelho



CCCIV.
Quando acordamos: a geração da maçã,
percebemos,
bem diferente era das uvas.

O poder verde estava para nós, cacho
de tintas manhãs

A realidade estendia agora a maçã terçã
e epilepsias

(O sol o dia tira da cartola nas retortas
do horizonte, quando acordamos.)

A lua, nova moeda. Luz louçã louca
O culto ao pênis sem a metafísica.

Discotecas e baile de baionetas
Praxis sem muros e tísicas quimeras.

A era de Eros. O prazer pelo prazer a eletricidade
que sem conduzir a nada choca.

A fé, a reação, a saúde:
o que não podíamos perder perdemos.

Em nós, entretecidas, as radículas.
Sol frio para onde todas as folhas íntimas vão.

Fita de pelo gravada nossa história
Onde nada se apaga, regravando.

No peito assim o relógio anti-horário
Onde só a geração das uvas sabe o passo.

Salvo engano foi isto que aconteceu
quando janelas góticas abrimos e acordamos



CCCV.
Às côdeas da noite (pois a luz
ainda não cortara o miolo à mesa) partiste
duas vezes: para longe
e o espelho do banheiro, onde a minha
face cubista.
Levaste objetos de uso pessoal
e a roupa do corpo (a outra, suada, em minha
memória deixaste pegada).
A porta riu vertical por instantes
atrás de ti. E só então
pude ver que era velha a noite
e que, sem dentes, ai, me mastigava



CCCVI.
Uma casa, a crisálida íntima
A saliva do tempo

a tecer asas e coleções de meninos
na fadiga do vôo

Criança a brincar com a vida
que com ela não brinca

as paredes de heras
a põr umidade nos olhos

o bolor da infância
e do que é esquecido trancado

Tampouco voa a carne pesada dos mamíferos,
os nossos fantasmas de leite

Coração é sempre asa
a sacudir a paisagem bêbada



CCCVII.
Uma palavra tocada
no piano dos
dentes.

Uma só palavra
e clava e
verso
para o que sem direção
ter sentido.

A nossa vida até então
a quatro mãos,
por um fio de saliva



CCCVIII.
Envia telegramas de sua chegada o outono
Folhas secas, destinatária mão

Intactas as palmeiras, verdes guarda-chuvas
Sabiás, mudas sombras

Embora à terra se deite outono outro
em anáguas fráguas

Travesseiro de grama sépia, a memória
pé-de-ninfa

Que mais se lava mais se suja, fêmea
no próprio charco

Rio a passar, o agora inodoro
Leito do porvir

Intactas as palmeiras, verdes guarda-chuvas.

O vento nos abana, eunuco



CCCIX.
A pedra e o
pau,
o pau e a
pedra

os teares malham
judas



CCCX.
Numa pequena gaiola
que outras gaiolas do reino guardava
e poleiros de pios pendia

Numa gaiola assim.

Onde, entre grades de capim,
vivia o homem
entre outros viveiros

Que verdes não são gafanhotos:
verde plantação
na fazenda dos ares.

Pássaro de gaiola, treinadas asas
de gaiola. O homem da morte
sabe o vôo



CCCXI.
18 Brumário de Napoleão & mariposas
adormecidas. Duas centopéias
no lugar dos olhos
O amor é um monstro, lunar.
Tetas procuram gatos depois do
circo passar.
Tudo começou com a capa de Ulisses
Vou acabar odiando tudo
Teus cremes que enlouquecem
pernilongos.
Bobs azuis penteiam rios, anêmonas
Aspas de unhas no peito: você me
chama de vampiro



CCCXII.
Quanto mais se vive
mais a memória parece recuar

Para a perda.

Acreditando-se mais nessa maga
morta

Há que estar cúmplice
a memória

Voltando sempre ao mesmo lugar

A vida não apresenta álibis, porém
E tampouco quer defesa



CCCXIII.
É como gato a natureza
do poema

Entre trinos e ratos
como gato

Mais: entre azul e sombra,
homens e Deus

Um enigma claro calmo sentado, o gato
Inda deitado, olho: teia sensível

Entretanto, pura diferença
de prisma:

Um faz a arquitetura da casa
O outro, o que habita



CCCXIV.
O poeta destece a rede da noite
e sempre acorda os galos

Luz a engolir nós
que o fio da vida vão encurtando

Num estranho medir de manhãs
o homem, estranho ábaco

Onde tudo se pensa, conta e liga
nos dedos das horas

Como o amor dos galos, a morte
rápido tecida

A vida porém treina em não acertar
o coração da dor

E lentamente fere
e, dias a fio, a rede alonga e estica



CCCXV.
Ser poeta é ser hipocondríaco. É ter mil
remédios e não ter receitas
É ter o coração de cama e usar pílulas
para dor de cabeça.

Ser poeta é entrar em coma
constantemente.
É viver sem saber que vive e sente.
É ele sobrevivente a si e para si.

Ser poeta é sentir em sinestesia o hospício
doido e doído. É ter um sonho internado
e vestir obrigado
a camisa-de-força do mundo



CCCXVI.
Tão logo ela descobriu
a vergonha pousou olhos a seus pés

E viu
a sandália

Levar, unida, a família dos dedos,
retirantes.

Porém
não se fechou a porta

Preferiu mostrar a língua e balançar a chave
e abanar o ar

Dispensa os lenços brancos das palavras
a despedida dos corpos



CCCXVII.
Meu verso piegas não leste. Faltou selo
e coragem

Sim, uma carta. E nela chovia
sem enigmas

Orelha envelopada. Sentido
e destino?

Não, não, não

Com as próprias mãos do papel
fiz pedacinhos

Ao azul

O vento, curioso, brincou de quebra-cabeças
e, a carta, leu baixinho



CCCXVIII.
Como não era de falar, ouvia
Orelha sobre as tábuas do assoalho, rangia

Ouro em pó, precipício e dança
Réstias de luz

Ratos roendo do país a paisagem
E eu estava lá, álibi

Em cada pedacinho de sabor
Em cada isca de vida

As calandras do tempo, os dias

Luz exígua, que importa?
Vive-se agora



CCCXIX.
Auto-retrato, cabelo ceifado rente
Orelhas
De lume crepita a cor.

Pégados corvos entre seres amarelos
a rapina de retinas

olhos: girassóis

Corvos de cor o estojo do arco-íris
aprisionado
em línguas líquidas

Lençóis de triste trigo & a realidade
debulhada
em moinhos de vento

Olhos deitaste quantos

A realidade era o teu joio
e de braços abertos, espantalho
Guardião de tintas íntimas

Trigo, pêlo de bicho
O teu cão amarelo em côdeas
de tua mão

A textura do verso longe
dos sulcos
desse arado onírico:

Espátula,
carícia em terra de cor.

Como os girassóis tudo se curva

e fica a gravitar.
A loucura do teu nome

A memória, vernissage de feridas
expostas
Paisagem que amarelece

Cavalete em cancela de grãos
Signos e crinas
A manjedoura dos ares

Os sóis dos teus terçóis
Ciprestes
de labaredas, lábios de fogo

Trigal com Corvos
Um grão liberta a cor de dentro

Um grão de som. E o dia
contou todos os corvos que havia

Um grão cor de corvo. Um grão
cor de chumbo.


Fim.


(c)1983, by Silvio Piresh
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